Enquadramento da área de estudo

A caracterização dos ecossistemas que foi realizada no âmbito do ATLAS da biodiversidade marinha do SO de Portugal incidiu sobre a faixa costeira entre os 0 e os -30 m de profundidade que se estende entre a Comporta e o Burgau.

A formação desta faixa costeira remonta à altura em que ocorreu a reabertura do Mar Mediterrâneo para o Oceano Atlântico há 5,5 milhões de anos, no Messiniano, que resultou no vazamento de uma grande bacia endorreica que formava um mar pouco salino, designado por Paratétis, que se estendia entre o Mediterrâneo e a Asia. Os eventos geológicos que estiveram na base do restabelecimento da abertura entre o Mediterrâneo e o Oceano Atlântico, e consequente vazamento do Paratétis, expuseram parte da Área do Alentejo e Algarve que até aí se encontravam submersos. Posteriormente, a formação das calotes geladas no período Quaternário (que teve início há 2,5 milhões de anos) expôs a restante parte do território nacional que se encontrava submersa e chegou a fazer com que o nível médio da água do mar na região da Península Ibérica descesse até -130 m quando comparado com os níveis de hoje.

Nos ciclos glaciares que caracterizam o período Quaternário assistiu-se ao sucessivo avanço e retrocesso das calotes geladas e respetivo retrocesso e avanço do nível médio no mar. No final da última glaciação (Wurmiano) cujo degelo terminou há cerca de 10.000 anos estabeleceu-se o limite da linha de costa de Portugal continental tal como a conhecemos hoje.

Uma vez que o Alentejo e o Algarve fizeram parte de um leito marinho, a natureza dos solos presentes é predominantemente arenosa. A natureza arenosa dos solos é evidente ao longo de parte da área de estudo, prolongando-se pela arriba costeira cujos elementos rochosos são arenitos resultantes da transformação associada à compactação das areias. Entre Porto-Covo e Sagres as arribas costeiras de natureza rochosa alternam entre arenitos e rochas cálcareas de origem metamórfica como os xistos e as ardóseas, cuja origem está associada eventos tectónicos que estiveram na génese da Serra do Cercal, Serra de Grândola, Serra do Espinhaço-de-cão, Serra de Monchique e Serra do Caldeirão.

Para além da história geológica que esteve na génese da natureza do substrato ao longo da linha de costa, surgem duas forças muito relevantes cuja atuação de forma contínua tem um papel fundamental na modelação da geomorfologia presente na linha de costa e natureza do leito marinho. Estas forças são o hidrodinamismo e a deriva costeira.

A deriva costeira, por definição é o mecanismo dinâmico que envolve a modelação das áreas costeiras pela introdução e transporte de sedimentos. Este mecanismo tem um papel preponderante na modelação da linha de costa e da natureza do leito marinho das áreas marinhas costeiras e depende da atuação conjunta de quatro fatores:

  • A entrada de sedimento em meio marinho;
  • As correntes predominantes que estão na base do transporte dos sedimentos presentes ao longo da linha de costa;
  • A direção predominante e intensidade da ondulação presente na linha de costa;
  • A direção predominante do vento e efeito que exerce no transporte de sedimento para meio terrestre a partir das zonas de praia.

A entrada de sedimento em ambiente marinho costeiro está principalmente associada à carga transportada pelas linhas de água. Na faixa costeira entre a Comporta e o Burgau as principais linhas de água responsáveis pela introdução de sedimento são o rio Sado e o rio Mira. Apesar de terem menor capacidade de carga de inertes, surgem inúmeras ribeiras ao longo desta faixa costeira que contribuem também para a introdução de sedimento nas áreas marinhas costeiras.

A corrente superficial predominante na costa Oeste de Portugal Continental tem uma orientação de Norte para Sul sendo esta a direção predominante do transporte de sedimento. Uma vez que o rio Sado é uma linha de água de grande dimensão com grande capacidade de carga, uma vez que a corrente costeira é predominante de Norte para Sul, a faixa costeira que se estende para sul do Estuário do rio Sado tenderá a ser arenosa.

A direção predominante da ondulação na região costeira Ocidental de Portugal Continental é proveniente de Noroeste/Oeste, este facto indica que a ondulação tem um papel preponderante na determinação da intensidade e orientação da corrente superficial costeira e tem um papel modelador muito relevante já que é a grande força de erosão que modela as áreas costeiras.

O efeito conjunto da erosão costeira associada ao hidrodinamismo, carga de sedimento que é transportada ao longo da linha de costa, e número de dias em que o vento permanece com uma orientação do mar para terra (“inshore”) é essencial para a formação de praias, regiões dunares e progressão das regiões costeiras terrestres em direção ao mar. O efeito da ondulação moderada sobre as zonas costeiras arenosas é a acumulação de sedimento no topo do talude de espraio das ondas, o efeito de transporte por ação do vento do sedimento acumulado no talude de rebentação das ondas em direção ao meio terrestre está na génese dos areais e regiões dunares que se estendem ao longo da interface entre o meio marinho e o meio terrestre.

O hidrodinamismo, associado ao mecanismo de maré e oscilação do nível do mar é uma das mais relevantes forças modeladoras das áreas costeiras a médio/longo-prazo. A velocidade e extensão com que os efeitos associados à erosão causada pelo stresse físico que as ondas exercem sobre as superfícies dependem do grau de compactação, composição e natureza dessas superfícies. As áreas arenosas são as mais facilmente modeladas pela ondulação podendo surgir e desaparecer muito rapidamente associadas apenas a um episódio catastrófico. A erosão em rocha de natureza calcária e sedimentar é mais rápida do que a erosão de rochas magmáticas como vidros vulcânicos e basaltos devido à sua composição química, porosidade e menor compactação.

Face à interação entre as forças responsáveis pela modelação do ambiente costeiro e natureza do substrato presente entre a Comporta e o Burgau, e tipo de ambientes marinhos presentes pode-se dividir a área de estudo em 8 troços:

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