Resultados Gerais

Durante o trabalho de campo foram recolhidos dados biológicos sob a forma de inventários das espécies dos grupos amostrados em meio circatidal (permanentemente imerso) e intertidal (faixa compreendida entre o limite máximo da preia-mar e o limite mínimo da baixa-mar), que foram complementados com uma caracterização geral do ambiente geomorfológico e das comunidades presentes de forma a identificar os principais habitats. A distribuição espacial dos locais prospetados foi feita de forma a concentrar o esforço de amostragem em oito áreas de estudo distribuídas ao longo da faixa costeira entre a Comporta e o Burgau e teve por objetivo detetar padrões de distribuição das espécies, comunidades e habitats, relaciona-los com o ambiente geomorfológico em que surgem e averiguar se existem diferenças significativas que possam estar associadas à latitude, ou a características intrínsecas dos locais amostrados.

Caracterização do ambiente geomorfológico e habitats marinhos

O ambiente geomorfológico presente no leito marinho entre a Comporta e o Burgau é bastante heterogéneo tendo sido modelado pela conjunção de 4 forças principais a tectónica de placas que esteve na origem da serra do Cercal, a erosão marinha, a deriva costeira e a deposição de sedimentos introduzidos por escorrências de origem continental, em que os rios Sado, Mira e outros fora da área de estudo têm um papel muito importante. Na costa Sul de Portugal o transporte de sedimento pelo vento proveniente do Norte de África e pelas escorrências continentais também tem um papel importante na modelação do leito marinho (Ver capítulo Enquadramento geomorfologia, biótopos e habitats).

As oito áreas de estudo consideradas no âmbito do ATLAS refletem o seu enquadramento geomorfológico e o efeito continuado das forças de erosão, transporte e sedimentação e fontes de matéria orgânica.

Nas áreas 1 (estuário do Rio Sado) e 2 (troço entre Tróia e Sines) a natureza do leito é predominantemente arenosa e os habitats e comunidades presentes dependem da combinação entre dois fatores, o hidrodinamismo e a carga de nutrientes provenientes de fontes exógenas. Na área 3, no troço a sul do cabo de Sines até Porto Covo, o leito apresenta maior abundância de afloramentos e acidentes rochosos. 

Na área 4, entre Porto Covo e Vila Nova de Milfontes, apesar de se continuar a observar elevada abundância de recifes rochosos, de um modo geral, estes são de menor dimensão e apresentam menor heterogeneidade morfológica do que os presentes na área 3 A sul do estuário do Mira, a superfície do leito marinho surge coberta por areia e os recifes tornam-se menos frequentes.

Nas áreas 5, 6 e 7, que incluem parte dos troços entre o estuário do Rio Mira/Vila Nova de Milfontes e o cabo Sardão, entre o cabo Sardão e o cabo de S. Vicente e entre o cabo de S. Vicente e Sagres, os recifes rochosos tornam-se mais abundantes e pontualmente surgem recifes de maior dimensão. Contudo, as áreas rochosas surgem principalmente nas imediações das falésias e promontórios naturais. Na área 6, observa-se o aumento da abundância, dimensão e heterogeneidade dos recifes rochosos em relação às áreas 5 e 7. 

Na área 8, entre Sagres e o Burgau, o número de recifes rochosos é elevado, surgem recifes de grande dimensão e área com elevada heterogeneidade, proporcionando ambientes distintos e muito heterogéneos. Nesta área, em locais adjacentes à falésia o leito marinho surge frequentemente a profundidades superiores a 15m. Neste local, a maior diversidade e abundância de recifes rochosos a diferentes cotas de profundidade, em conjunto com a influência de massas de água de origens diferentes (Mediterrânio, Noroeste Atlântico e Norte de África) criam um ambiente muito rico e diverso onde, não só se podem encontrar espécies típicas de ambiente subtropicais, tropicais, e setentrionais como se observa uma maior concentração de diversidade em termos gerais.

Área 1

Na área estuarina que está incluída na área 1, surgem mouchões, sapais e bancos de plantas marinhas que estão entre os biótopos mais produtivos do planeta, sendo responsáveis, não só pela grande riqueza presente no estuário do rio Sado como têm um papel preponderante na manutenção da abundância e riqueza de espécies presentes nas áreas adjacentes a este corpo de água costeiro. O sapal e os mouchões surgem a montante da boca do estuário do Sado, apresentam-se moderadamente fragmentados exibindo assim comunidades com um nível de conservação elevado.

Os bancos de plantas marinhas surgem concentrados nos esteiros da margem sul do estuário do Sado prolongando-se até jusante da boca do mesmo. Os bancos de plantas marinhas presentes nos esteiros menos profundos e nas margens dos esteiros principais, apesar de ainda cobrirem áreas consideráveis, apenas representam uma pequena fração dos bancos de plantas marinhas outrora presentes no estuário do rio Sado. A sua fragmentação e desaparecimento estão sobretudo relacionados com a prática de apanha de bivalves com escafandro, que atualmente é proibida, e utilização de artes de pesca de arrasto como a ganchorra (também proibidas). A potenciação da introgressão da maré associada ao aprofundamento de esteiros também tem contribuído para o desaparecimento dos bancos de plantas marinhas presentes nas áreas mais expostas à corrente.

Nas proximidades da boca do estuário do Sado surgem povoamentos de plantas marinhas muito fragmentados. O seu baixo estado de conservação está associado aos fatores acima mencionados e à inexistência de regras quanto ao fundeio de embarcações de recreio, o que cria descontinuidades nos bancos de plantas marinhas.

Nas áreas costeiras localizadas na faixa que se estende para Sul do estuário do Sado, o leito é arenoso refletindo a carga sedimentar que é introduzida pelo Rio Sado, e as comunidades marinhas presentes são, de um modo geral, pouco ricas e abundantes. Estas comunidades são sobretudo compostas por invertebrados bentónicos e apresentam baixas densidades de organismos quando comparadas com as anteriores.

Área 2

A área 2 inclui parte do troço de costa que se estende entre Tróia e Sines e é fortemente influenciada pela carga sedimentar introduzida pelo Rio Sado, pelo que o leito marinho é predominantemente arenoso.

Os ecossistemas presentes são pobres, dada a ausência de fontes regulares de matéria orgânica, e surgem representados por comunidades de organismos bentónicos, nomeadamente endofauna como anelídeos, gastrópodes e alguns artrópodes. Pontualmente surgem chocos, lulas e peixes, entre os quais se destacam espécies com adaptações morfológicas (como as raias, solhas, pregado e os linguados) e pigmentares à vida no leito arenoso (como o peixe-aranha e o peixe lagarto).

Área 3

A área 3 inclui o troço de costa entre Sines e Porto Covo. Devido ao efeito de barreira que o cabo de Sines exerce sobre a deriva costeira, o leito apresenta maior abundância de recifes rochosos. Nesta área surgem recifes muito heterogéneos criando ambientes propícios para a fixação de uma grande diversidade de espécies e comunidades marinhas. Apesar de surgirem recifes de grande dimensão existem também grandes áreas arenosas pelo que o leito tem predominantemente características mistas.

Nesta área de estudo surgem comunidades ricas com elevada abundância de espécies. Nos recifes menos profundos e nos que afloram à superfície a biocenose de macroalgas é rica, não sendo raros os povoamentos de laminárias. A profundidades superiores a 10m assiste-se à transição da biocenose das macroalgas para a biocenose dos invertebrados sésseis, em que se destacam as anémonas, as gorgónias e as esponjas pela sua abundância. 

Nas zonas de fronteira entre os recifes e o meio arenoso são comuns os povoamentos de espécies e comunidades de indivíduos típicos de regiões arenosas, que aproveitam o aporte de matéria orgânica oriunda dos povoamentos característicos de superfícies rochosas.

Área 4

A área 4 inclui o troço de costa entre Porto Covo e Vila Nova de Milfontes. Neste troço os afloramentos rochosos são menos abundantes, surgem a cotas de profundidades raramente superiores a 10-15m e o ambiente marinho predominante é de natureza arenosa ou mista. A menor abundância e diversidade morfológica dos afloramentos rochosos manifesta-se de forma clara nas comunidades presentes.

As comunidades marinhas incluem uma biocenose de macroalgas e invertebrados sésseis pouco desenvolvidas devido à exposição à ondulação e, devido à escassez de abrigos, existem menos espécies de peixes e invertebrados de vida livre.

A Sul do estuário do rio Mira, o leito marinho é predominantemente arenoso e as comunidades presentes são pouco abundantes e apresentam menor riqueza do que na área 3.

Área 5

A área 5 inclui o troço de costa que se estende para Sul do estuário do rio Mira. Nesta área os afloramentos rochosos ocorrem principalmente nas imediações da falésia, surgem bastante expostos à ondulação raramente a profundidades superiores a 10-12m. A baixa heterogeneidade dos recifes presentes no leito resulta na reduzida riqueza de espécies e comunidades presentes.

Área 6

Na área 6 as condições são semelhantes às presentes na área 5 com a diferença de que os afloramentos rochosos são mais abundantes e apresentam maior heterogeneidade. A natureza do leito marinho é principalmente arenosa ou mista.

As comunidades presentes não diferem das presentes na área 5 exceto nos afloramentos rochosos maiores e heterogéneos, onde surge maior diversidade de microhabitats.

Área 7 

Na área 7 o leito marinho apresenta características próximas às presentes na área 5 com a diferença de que os afloramentos são mais heterogéneos e como tal apresentam maior diversidade de habitats para espécies sésseis e abrigos para as espécies de vida livre.

Na região costeira presente nas proximidades do limite Sul desta área assiste-se ao aumento do número de recifes rochosos que se apresentam a diferentes cotas de profundidade e com elevada heterogeneidade. Contudo, à semelhança das áreas 5 e 6 o leito marinho apresenta características predominantemente mistas. 

Área 8

Na área 8 o leito marinho é extremamente heterogéneo. Surgem diferentes tipos de recifes rochosos, muito variáveis em termos de morfologia e dimensão a diferentes cotas de profundidade que, em conjunto com o encontro de massas de água de diferentes origens, proporciona condições para o estabelecimento de comunidades muito diversas e abundantes. Tal como se observou na área 3, a presença de recifes a várias cotas de profundidade permite constatar a alternância entre biocenoses de macroalgas e de invertebrados sésseis em função da exposição luminosa.

Nesta área o leito marinho alterna predominantemente entre o rochoso ou misto, surgindo também áreas de areal consideráveis.

Riqueza de espécies nas comunidades presentes nas áreas de estudo

No total foram amostradas 567 espécies durante as amostragens tendo-se confirmado a presença de mais quatro espécies durante as deslocações entre pontos, ou locais de amostragem. Tendo em conta apenas as espécies amostradas nos pontos pré-determinados foram amostradas 111 de macroalgas, 25 de esponjas, 11 espécies de briozoários, 44 de cnidários, 38 de anelídeos, 70 espécies de artrópodes, 120 espécies de moluscos, 21 espécies de equinodermes, 15 de ascídias e 101 espécies de peixes,  e. Os restantes grupos foram representados por um número de espécies variável entre 1 e 5 e estão indicados nas tabelas de espécies apresentadas em anexo.

A elevada riqueza de espécies encontrada não corresponde a um inventário exaustivo de todas as espécies presentes na área de estudo, pois tal exigiria um planeamento amostral mais intensivo e prolongado. Não obstante, apesar dos dados recolhidos apenas representarem uma fração da riqueza total presente na área de estudo, o elevado número de espécies inventariado reflete a grande heterogeneidade e riqueza destes ecossistemas, salientando a importância da área de estudo para a conservação das comunidades marinhas na costa Portuguesa, bem como a sua relevância estratégica do ponto de vista do desenvolvimento de uma economia vocacionada para o fomento e produção sustentada de recursos vivos marinhos e para o desenvolvimento do turismo de contemplação da natureza.

Como seria de esperar, a distribuição das espécies nos ambientes amostrados não é homogénea dado existirem diferenças muito marcadas entre a zona de marés (intertidal) e a zona que permanece abaixo do nível mínimo de maré (circatidal). De um modo geral, nas zonas rochosas, a zona entre-marés apresenta uma biocenose de produtores primários com elevada riqueza de espécies; surgem também comunidades de moluscos muito ricas, e a principal diferença em relação ao ambiente circatidal é percetível na abundância das espécies de peixes, cnidários, esponjas, briozoários e ascídeas, que é significativamente menor na zona intertidal (Figura 1).

As diferenças observadas revelam o padrão esperado e estão relacionadas com o facto das zonas entre marés ficarem expostas às condições atmosféricas periodicamente.

Figura 1 – Riqueza total de espécies dos principais grupos taxonómicos amostrados durante o trabalho de campo.

Intertidal

Tal como foi referido no capítulo “Enquadramento-Geomorfologia, Biótopos e Habitats”, surgem três principais tipos geomorfológicos nas zonas intertidais que exercem um papel preponderante na estruturação das comunidades presentes e que permitem o estabelecimento de três biótopos principais: os biótopos típicos das áreas de substrato móvel (designados por “biótopo arenoso” nos parágrafos que se seguem), os biótopos típicos das áreas rochosas (“biótopo rochoso”), e os biótopos típicos de áreas em que o leito tem características mistas (“biótopo misto”).

O tipo de substrato presente no leito marinho, em conjunto com o aporte de nutrientes e o hidrodinamismo, tem um papel estruturante das comunidades que podem ocorrer em meio intertidal e marinho. Nas áreas de substrato móvel a ausência de superfícies sólidas impede a fixação de uma biocenose de macroalgas rica e abundante e tem também um papel limitante na ocorrência de inúmeras espécies de invertebrados sésseis. Nas áreas arenosas as comunidades presentes no intertidal são geralmente representadas por invertebrados que vivem no substrato e se alimentam de detritos de matéria orgânica provenientes de fontes exógenas e a sua riqueza e abundância depende desse aporte de matéria orgânica. Assim, nas regiões estuarinas surgem bancos de vaza e areia onde ocorrem comunidades de invertebrados muito abundantes e ricas. Inversamente, nas regiões costeiras localizadas em zonas muito expostas ao hidrodinamismo das ondas e deriva costeira, onde as fontes de matéria orgânica são reduzidas, as comunidades intertidais são representadas por um número reduzido de espécies que ocorrem em baixa densidade.

Comparativamente com os biótopos misto e rochoso, o biótopo arenoso tende a ser representado por menos espécies e abundância de indivíduos. Nas unidades consideradas para o presente trabalho, nas áreas 1 e 2 o biótopo intertidal é predominantemente arenoso (Figura 2). 

O biótopo misto é caracterizado pela presença de afloramentos rochosos em áreas arenosas e por isso apresenta comunidades compostas por espécies típicas de ambientes arenosos e de ambientes rochosos. Nas áreas em que os maciços rochosos apresentam maior heterogeneidade os biótopos mistos apresentam características similares às presentes em meio rochoso sendo por vezes difícil a sua distinção.

A existência de substrato sólido permite a fixação de espécies sésseis como macroalgas, anémonas, algumas esponjas e mexilhão, entre outras, que por sua vez constituem a base alimentar de espécies de vida livre. Deste modo as comunidades presentes nas áreas de biótopo misto apresentam um elevado número de espécies e abundância de indivíduos. A produtividade das comunidades presentes em substrato sólido resulta na libertação de matéria orgânica, por ação das ondas e alimentação de outras espécies, que se deposita no leito em locais abrigados da rebentação possibilitando o estabelecimento de ricas e abundantes comunidades típicas de substrato móvel, sobretudo nas áreas arenosas contiguas aos recifes rochosos.

O biótopo rochoso surge associado a grandes recifes e afloramentos rochosos, surge nas paredes das falésias e em todos os recifes rochosos presentes na zona intertidal. A distinção que se fez em relação ao biótopo misto é ténue e relaciona-se sobretudo com a dimensão do recife, sua heterogeneidade e evidência da presença de uma relação óbvia com biótopos típicos de ambientes arenosos, como a presença de espécies típicas desses ambientes.

As áreas rochosas estão bem representadas nas imediações de Porto Covo e entre o Cabo Sardão e Sagres, apesar de os biótopos serem predominantemente mistos.

Figura 2 – Riqueza específica (nº total de espécies) por área de estudo e biótopo.

A figura 2 mostra o padrão de distribuição de riqueza específica total nas áreas amostradas, em função do tipo de biótopo presente. A sua observação permite constatar o padrão anteriormente descrito, ou seja, nas áreas arenosas fora da influência de estuários a riqueza específica tende a ser baixa e nas áreas de biótopo arenoso próximas de estuários, no biótopo misto e no biótopo rochoso o número total de espécies tende a ser mais elevado.

O gráfico da figura 2 mostra uma clara diferença entre os biótopos rochosos e os mistos presentes nas áreas 3, 4, e 5 que está relacionada com o facto de nestas áreas os biótopos mistos serem representados por recifes rochosos de pequena dimensão dispersos em ambiente arenoso. O aumento do número espécies que se observa entre os biótopos mistos presentes nas áreas 3,4, 5, 6, 7 e 8 reflete o aumento da heterogeneidade dos recifes presentes nestes. Nas áreas 6,7 e 8 os recifes rochoso são muito heterogéneos e a interação entre as comunidades típicas de ambientes rochosos e arenosos é bem patente. Assim, apesar de surgirem grandes maciços rochosos, nestas áreas não é clara a separação entre ambiente rochoso e arenoso ao nível das espécies presentes nas comunidades intertidais. Assim, optou-se por classificar estas áreas como biótopos mistos.

As figuras 3 e 4 apresentam a distribuição da riqueza específica nos principais grupos taxonómicos amostrados, por cada área de estudo.

Figura 3 – Distribuição da riqueza específica (nº total de espécies por habitat) pelos principais grupos taxonómicos amostrados no intertidal nas áreas de estudo localizadas mais a Norte.

Os padrões de distribuição de riqueza específica por cada biótopo amostrado em cada área de estudo estão de acordo com o esperado. Na área 1, a presença do estuário do Rio Sado contribui para a elevada riqueza e abundância de espécies de bivalves, gastrópodes, anelídeos e artrópodes encontradas. Por outro lado, devido à ausência de fontes exógenas de matéria orgânica e elevada exposição ao hidrodinamismo, os biótopos presentes nas zonas arenosas do intertidal da área 2 são representados por um número de espécies mais reduzido.

Nas áreas 3 e 4 também se observa o padrão esperado, ou seja, a ausência de macroalgas e o menor número de espécies presentes no biótopo arenoso quando comparado com o número de espécies presentes nos biótopos misto e rochoso. A distribuição da riqueza de espécies nas áreas 3 e 4 também evidencia a existência de um número maior de espécies no biótopo rochoso quando comparado com o biótopo misto, o que está relacionado com o facto de o biótopo misto nestas áreas se caracterizar pela presença dispersa de pequenos recifes rochosos, pobres em espécies características destes habitats devido à ação erosiva dos sedimentos e das correntes marinhas, em extensas áreas arenosas.

Figura 4 - Distribuição da riqueza específica (nº total de espécies por habitat) pelos principais grupos taxonómicos amostrados no intertidal das áreas de estudo localizadas mais a Sul.

O padrão de distribuição da riqueza específica observado nas áreas 5, 6, 7 e 8 está de acordo com o resultado esperado. Ou seja, surge uma biocenose de macroalgas bem representada quem em ambientes mistos como em ambientes rochosos, os restantes grupos taxonómicos mais abundantes são os artrópodes e os moluscos (Figura 4).

Circatidal

Tal como a zona intertidal, o ambiente circatidal pode ser classificado de acordo com a natureza do substrato em arenoso, misto e rochoso. No entanto, este tipo de classificação não tem em consideração um dos principais fatores estruturantes das comunidades presentes, a profundidade. No âmbito da deteção de padrões de distribuição relacionados com a disponibilidade de luz solar, as amostragens foram estratificadas em 6 estratos de acordo com a profundidade (3-6m, 3-10m, 10-15m, 15-20m, 20-25m, 25-30m).

A análise da riqueza específica total em função da profundidade, área de estudo e habitat revela alguns padrões como o facto de a riqueza total observada nos bancos de plantas marinhas ser semelhante à presente em recifes rochosos e de a riqueza específica presente em ambientes predominantemente arenosos localizados fora da influência de estuários ser menor do que nos restantes locais (Figura 5).

Figura 5 – Distribuição da riqueza específica total por biótopo e cota de profundidade em cada área de estudo.

A análise da distribuição da riqueza específica nos principais grupos taxonómicos presentes nas comunidades do circatidal corrobora os padrões anteriormente observados e permite ainda verificar que o maior número de espécies presentes nas áreas rochosas e mistas quando comparadas com os povoamentos de plantas marinhas amostrados na área 1, estão principalmente relacionados com a riqueza específica presente na comunidade de macroalgas (Figura 6).

A análise dos diferentes estratos de profundidade revela diferenças significativas sobretudo ao nível da diversidade de espécies de macroalgas e indicia que a transição entre esta biocenose e a biocenose dos invertebrados que ocorre entre os 10-15m de profundidade. Os padrões de variação da riqueza específica nos restantes grupos não revelam qualquer tendência que permita retirar conclusões.

Figura 6 – Distribuição da riqueza específica (nº total de espécies por grupo) estratificada em função da profundidade para cada biótopo amostrado.

A análise dos padrões de distribuição da riqueza específica nos biótopos presentes nas áreas 6, 7, e 8 (Figura 7) permite constatar que, em termos gerais, existe maior riqueza específica na área 8; que a transição entre a biocenose de macroalgas e a biocenose de invertebrados sésseis ocorre entre os 10-15m; que existe uma redução da biodiversidade total entre os 20-25m e os 25-30m de profundidade; e que existe uma grande variabilidade na abundância de espécies dos diferentes grupos taxonómicos em biótopos semelhantes. Este resultado corrobora os padrões anteriormente referidos, reflete a maior riqueza e diversidade topográfica presente no leito marinho na área 8 e mostra claramente que existem variações resultantes de diferenças nas características intrínsecas dos locais amostrados.

A análise da distribuição da riqueza de espécies nas diferentes áreas de estudo, habitats e estratos de profundidade permite ainda verificar que, em média, a diversidade tende a ser maior nas áreas 1, 3, 6 e 8. Este resultado relaciona-se com a heterogeneidade dos biótopos marinhos nestas áreas, que é particularmente notória na envolvente a Porto Covo e entre a Pedra do Gigante, localizada a Norte do Cabo de S. Vicente, e Sagres. Nestas áreas surgem grandes recifes rochosos, formações únicas e uma biodiversidade com elevado interesse do ponto de vista da prática de atividades vocacionadas para a contemplação dos valores naturais presentes em meio marinho.

 

Figura 7 - Distribuição da riqueza específica estratificada em função da profundidade para cada biótopo amostrado.

Análise estatística conjunta da riqueza específica em todos os pontos de amostragem

A análise descritiva dos resultados obtidos apresentada no capítulo anterior pode ser complementada por uma análise estatística conjunta, que permite agrupar os diferentes pontos de amostragem de acordo com o seu elenco florístico e faunístico. Esta metodologia permite verifcar posteriormente se os fatores que explicam o padrão de agregação se devem essencialmente ao tipo de substrato, à latitude da área amostrada, à batimetria ou outros fatores não identificados neste ATLAS.

A observação dos dendrogramas e do escalonamento multidimensional (MDS) dos dados de cada ponto de amostragem mostra que o principal fator de ordenamento é o tipo de substrato, conforme foi referido anteriormente (Figura 8). Este fator explica a divisão mais basal nos dendrogramas e os pontos mais isolados na análise por MDS quer no que diz respeito ao meio intertidal (Figuras 8A e 8B, respetivamente), quer no que diz respeito ao circatidal (Figuras 8C e 8D, respetivamente).

A

B

C D

Figura 8 – Ordenamento dos pontos de amostragem de acordo com a semelhança na riqueza faunística e florística no intertidal num dendrograma (A) e por análise multivariada de escalonamento multidimensional (B). Ordenamento dos pontos de amostragem de acordo com a semelhança na riqueza faunística e florística no circatidal num dendrograma (C) e por análise multivariada de escalonamento multidimensional (D).

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