Geologia e Geomorfologia

INTRODUÇÃO – ENQUADRAMENTO GEOLÓGICO E GEOMORFOLÓGICO

ENQUADRAMENTO GEOLÓGICO 

O sudoeste português é uma região que se destaca pela variedade de objetos geológicos existentes que testemunham várias etapas da história geológica da região, que cobre um período de mais de 300 milhões de anos (Ma) desde o período Carbonífero até à atualidade. Durante este intervalo de tempo ocorreram um conjunto de processos geológicos cujo principal resultado foi a extraordinária variedade de rochas possível de serem encontradas nesta região. Ao longo da sua história o nosso planeta sofreu um conjunto de alterações, fruto da sua dinâmica interna, que promove a permanente movimentação da sua zona mais superficial no que se designa por tectónica de placas. Esta movimentação desloca os continentes promovendo a abertura dos oceanos, quando aqueles se afastam, ou a formação das cadeias de montanhas, quando se aproximam. Quando analisados com mais detalhes os movimentos tectónicos, é possível distinguir a existência de um ciclo, chamado Ciclo de Wilson, que grosseiramente corresponde ao nascimento e desaparecimento dos oceanos. O final do Paleozóico, há aproximadamente250 Ma é marcado pelo final de um dos ciclos de Wilson, do qual resultou a colisão de todas as placas continentais e formação de um supercontinente, chamado Pangea, que se encontrava rodeado por um oceano de enormes dimensões, designado por Pantalassa. A formação da Pangea está associada ao desenvolvimento de cadeias de montanhas antigas, grande parte das quais se encontra atualmente arrasada pela erosão. Ao longo do litoral do sudoeste de Portugal, encontram-se muitas evidências desta etapa da história da Terra e das etapas subsequentes. As formações geológicas existentes nesta região podem dividir-se entre as que se formaram na consequência direta da aglomeração de continentes que deu origem à Pangea e as que se originaram posteriormente. As formações mais recentes resultam dos processos associados à criação e desenvolvimento do oceano Atlântico.

Sectores do Sudoeste Português Litoral
Considerando a diversidade geológica da região, é possível dividir o sudoeste de Portugal em cinco sectores distintos, pelo tipo de rochas existentes e pela história geológica a eles associada (Figura 1).

De norte para sul encontra-se:
I - Arco Tróia-Sines – Corresponde a uma faixa litoral de 65 km que se estende entre o estuário do rio Sado, a norte, e o Cabo de Sines, a sul. Para além da praia arenosa contínua que bordeja o arco, cuja largura varia entre 60 e 200 metros, há ainda a destacar os sistemas lagunares de Melides, Santo André, Sancha e Ribeira de Moinhos. Ao longo deste troço encontram-se sedimentos holocénicos (aproximadamente 10.000 anos até atualidade), constituídos por areias de praia, areias eólicas e aluviões fluviais.

Figura 1 - Sectores do sudoeste português (divisões feitas a partir das características geológicas mais relevantes). Adaptado da Carta Geológica à escala 1:500.000 dos Serviços Geológicos de Portugal, 1992.

II - Mesozóico inferior de Santiago do Cacém – Na área de Santiago do Cacém afloram rochas do período Mesozóico, correspondentes às formações mais meridionais conhecidas da Bacia Lusitânica. Estas formações, que cobrem o intervalo de tempo que medeia entre o Triásico e o Jurássico superior, encontram-se parcialmente cobertas pelos sedimentos Cenozóicos, do que resulta o aspeto retalhado deste conjunto. Para além da zona de Santiago do Cacém, é ainda possível encontrar testemunhos da bacia mesozoica na área de Sines; encontrando-se, no entanto, os sedimentos muito modificados pelos processos associados à instalação do maciço intrusivo de Sines. O registo sedimentar inclui sedimentos detríticos, depositados em ambiente
semi-árido durante os estádios iniciais da fracturação da Pangea (Triásico), sedimentos argilo-carbonatados de ambiente lagunar supratidal (passagem do Triásico para o Jurássico), um complexo com sedimentos intercalados com rochas vulcânicas associado aos estádios iniciais de formação de litosfera oceânica durante a abertura do oceano Atlântico (base do Jurássico) e sedimentos calcários indicadores de ambiente de sedimentação tendencialmente marinho franco (até ao final do Jurássico).

III - Maciço Intrusivo de Sines – O Maciço Intrusivo de Sines corresponde a um conjunto diversificado de rochas magmáticas como gabros e sienitos para além de um vasto cortejo filoneano. O maciço tem uma forma elíptica, encontrando-se a maior parte submersa. A maior parte da porção emersa do maciço encontra-se coberta por sedimentos do Plio-Plistocénico e do Holocénico, só sendopossível observar bem as rochas magmáticas nas secções ao longo do litoral. Adatação das rochas que constituem o maciço atribui-lhe uma idade de instalação de, aproximadamente, 70 Ma. A intrusão do Maciço Intrusivo de Sines, em associação com mais dois maciços intrusivos do mesmo período e com algumas características semelhantes (Sintra e Monchique), é testemunho de uma importante etapa da história evolutiva do oceano Atlântico e da Península Ibérica.

IV - Paleozóico do litoral alentejano (sector S. Torpes – Telheiro) – Uma porção considerável da região Alentejo, corresponde ao que se designa, do ponto de vista geológico, como Zona Sul-Portuguesa. Esta zona, cuja evolução está ligada ao ciclo orogénico do final do Paleozóico, é constituída por formações do Devónico e do Carbonífero. Ao longo do litoral alentejano afloram as formações do Flysch do Baixo Alentejo e do Sector Sudoeste. Correspondem essencialmente a sedimentos depositados em ambiente marinho, desde sedimentos de pequena profundidade, como calcários, até sedimentos profundos, como turbiditos.Estas formações, as mais antigas que se podem observar em todo o sudoeste português, sofreram os efeitos colisionais, associados ao evento orogénico do qual resultou, para além de cadeias de montanhas atualmente muito arrasadas, a formação da Pangea, no final do Paleozóico. Assim estas formações encontram-se deformadas e metamorfizadas de uma forma singular, quando comparadas com as que ocorrem nos outros sectores do litoral.

V - Bacia do Algarve (sector Sagres – Vila do Bispo) – A bacia do Algarve é uma entidade geológica com cerca de 150 km de extensão e 30 km de largura, na sua porção emersa, tem uma orientação aproximadamente E-W e localiza-se no extremo SW da Península Ibérica. O seu registo sedimentar inicia-se no Triásico (durante os estádios iniciais de fracturação da Pangea) e prolonga-se até ao Holocénico. Quando estudada em detalhe é possível perceber que a bacia do Algarve corresponde, de facto a duas bacias: (i) uma bacia mesozóica que se inicia no Triásico e se desenvolve até ao Cretácico inferior; (ii) e uma bacia cenozóica cujo registo sedimentar se inicia no Paleogénico e se prolonga até ao Holocénico. Na zona a que o Atlas se refere afloram essencialmente formações detríticas do Triásico, formações calcárias e dolomíticas do Jurássico e alguns sedimentos detríticos do Plio-Plistocénico e do Holocénico. Desde os estádios iniciais, a formação e desenvolvimento da bacia do Algarve esteve na estreita dependência da fracturação e abertura do oceano Atlântico, por um lado, e da atividade da fronteira de placas tectónicas entre a Península Ibérica e a África, por outro.

ENQUADRAMENTO GEOMORFOLÓGICO

O relevo observável na superfície da Terra é o resultado de uma interação complexa entre processos de origem interna e de processos externos que modelam a camada mais superficial do nosso planeta. Os processos de geodinâmica interna ligados à tectónica de placas têm um efeito criador de relevo enquanto os processos de geodinâmica externa têm um efeito destruidor do relvo. Da interação dos dois conjuntos resulta o modelado observável que condiciona a distribuição dos principais ecossistemas, influencia a diversidade climática e a própria implementação de povoados e desenvolvimento de vias de comunicação.

Em Portugal são identificados 3 conjuntos morfoestruturais principais, que tomam as designações de: a) Maciço antigo – correspondente ao relevo desenvolvido sobre as rochas mais antigas, que estão associadas ao desenvolvimento de cadeias montanhosas antigas; b) Orlas Mesocenozóicas Ocidental e Meridional; c) Bacia Cenozóica do Tejo-Sado. A área coberta por este atlas inclui porções dos três conjuntos morfoestruturais (Fig. 1), nomeadamente do Maciço Antigo o Baixo Alentejo e as Serra Envolventes, da Orla Mesocenozóica ocidental a Bacia do Alentejo, da Orla Mesocenozóica Meridional o extremo SW da Bacia Algarvia, da Bacia do Baixo Tejo e do Sado e a Faixa Litoral.

Estes conjuntos distinguem-se pelas características litológicas das formações onde se desenvolvem e pelo tipo, intensidade e idade das deformações tectónicas que sofreram. Na área abrangida pelo Atlas, o Baixo Alentejo e as Serras Envolventes correspondem à morfologia desenvolvida sobre o substrato consideravelmente homogéneo constituído por xistos e grauvaques da Zona Sul-Portuguesa, correspondentes a sedimentos turbidíticos pouco metamorfizados do designado Grupo do Flysch do Baixo Alentejo. Neste conjunto morfo- estrutural predominam as superfícies de aplanamento que constituem a Peneplanície do Baixo Alentejo (PBA) unidade fundamental do relevo da parte meridional de Portugal. A altitude da PBA varia entre um mínimo de 160-180 metros e um máximo de 250-300 metros, nos sectores leste e sul. Trata-se de uma superfície poligénica cujas características terão ficado definidas no Paleogénico. É possível encontrar muitos depósitos continentais terceários preservados ao longo da PBA. Relativamente às designadas Serra Envolventes, há a destacar as serras do Cercal e de Grândola que constituem um alinhamento de relevos que separam, ao longo de cerca de 60 km a plataforma litoral da Bacia do Sado. Estas serras formam-se na sequência da movimentação de falhas recentes, que constituem o seu limite ocidental, responsáveis pelo soerguimento do fundo da Bacia do Sado, até às cotas atuais, sendo ainda possível observar alguns fragmentos da cobertura sedimentar detrítica. O limite W corresponde, como já foi dito a uma escarpa de falha, que provoca um ressalto topográfico de cerca de 100 metros entre o topo das serras e a plataforma litoral.

Apesar de se localizar fora da área abrangida por este Atlas, merece ainda destaque a serra de Monchique, pela sua dimensão e localização, visível da maior parte do litoral do Baixo Alentejo e do Algarve. A serra de Monchique é constituída por um soco fundamentalmente xistento onde se desenvolvem inúmeros cabeços entre os 300 e os 400 metros e um maciço intrusivo, de natureza magmática, que apresenta relevos mais acentuados, atingindo os 900 metros de altitude. As rochas constituintes deste maciço intrusivo são, na sua maior parte, sienitos nefelínicos e a forma geral é a de uma elipse com o eixo maior aproximadamente E-W e corresponde a um relevo residual, resultante da maior resistência dos sienitos nefelínicos à erosão, quando comparado com os xistos encaixantes.

A orla mesocenozóica meridional algarvia corresponde a uma bacia de orientação geral ENE-WSW, com sequências sedimentares que espessam e apresentam fácies de maior profundidade para SSE, localizando-se o depocentro da bacia no mar. As formações mais antigas que contactam com os xistos do Grupo do Flysch do Baixo Alentejo correspondem a uma sequência de rochas argilosas e evaporitos do Triásico-Base do Jurássico, sobre o qual assenta um complexo Vulcano-sedimentar. A suscetibilidade à meteorização desta sequência faz com que as áreas em que aflora correspondam a depressões relativamente aos calcários e dolomitos do Jurássico inferior que assentam em discordância sobre as formações mais antigas. Os calcários e dolomitos, com a sua maior resistência dão frequentemente origem a cornijas. Mais a sul desenvolve-se sobre as formações jurássicas o designado barrocal, com maior expressão no Algarve Central.

Na área abrangida pelo Atlas não há grande expressão da orla mesocenozóica ocidental. De facto, a sul de Setubal, apenas há registo de alguns afloramentos do Mesozóico na zona de Sines-Santiago do Cacém, que não tem expressão morfológica suficientemente marcada para merecer um lugar de destaque nesta introdução.

Em relação à Bacia do Sado, ela divide-se em duas sub-bacias a setentrional com uma orientação geral NW-SE e limitada por duas falhas (de Grândola e do Torrão) e a meridional cujo limite sul corresponde a uma falha de maior importância na Península Ibérica, chamada falha da Messejana, que na área emersa se estende do litoral alentejano até próximo de Madrid. A história da sedimentação nesta bacia tem início no Eocénico (aproximadamente há 50 milhões de anos atrás) e é constituída por três fases, correspondentes a diferentes características paleoambientas: i) a primeira fase desenvolve-se durante o Paleogénico, durante o qual a sedimentação terá ocorrido fundamentalmente em leques aluviais; ii) durante o Miocénico inferior e Miocénico médio, ocorre a segunda fase de sedimentação, muito marcada pela ocorrência de transgressões o regressões marinhas; iii) finalmente durante o Miocénico médio inicia-se uma fase de sedimentação marcadamente continental onde apenas se individualiza uma série marinha intercalada, de idade Messiniana.

A orla costeira é marcada pela presença de uma entidade morfológica, resultado de uma interação complexa de processos, dos quais se destacam a ação erosiva do mar, o transporte de sedimentos da área continental e sua deposição, bem como a deformação tectónica correspondente a designada plataforma litoral, de largura variável e com altitudes que não ultrapassam os 200 metros. O desenvolvimento desta plataforma iniciou-se durante o Pliocénico e nela se encontram embutidos os terraços marinhos do Quaternário, resultado da interação entre as oscilações eustáticas e o levantamento tectónico que a região sofreu.

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