Vila do Bispo: uma terra de Marisqueiros

Artur Vieira de Jesus

O concelho de Vila do Bispo é hoje um espaço predominantemente ligado à atividade turística, procurado pelas suas praias, paisagens e gastronomia, diferentes do que se pode encontrar no Algarve do turismo de massas que tem as suas próprias especificidades.

Dentro da gastronomia, se existe um cartão-de-visita importante e único para apresentar este Concelho é um interessante marisco conhecido por Percebe, o qual se desenvolve e é apanhado num dos mais interessantes troços da costa portuguesa, situado nestas terras do Cabo de São Vicente.

Comecemos por identificá-lo.

O Percebe ou Perceve1 desenvolve-se na zona rochosa de fronteira entre as marés2 e é formado pela unha e por um pedúnculo3, que pode atingir entre os 5 e os 15 centímetros4, o qual constitui a parte que é comestível5 e que foi e continua, ainda hoje, a deliciar quer os locais, quer os visitantes, nacionais ou estrangeiros que demandam as paragens do extremo sudoeste do Algarve.

Toda esta zona costeira que podemos situar, no concelho de Vila do Bispo, entre a Praia do Murração (a Norte), seguida pelas do Mirouço, da Barriga, da Cordoama, do Castelejo, da zona da Torre de Aspa, da Ponta Ruiva, do Telheiro, do grandioso Cabo de São Vicente, Sagres e da Praia da Ingrina (a Sul), conforme levantamento efetuado pelo antropólogo Carlos Baptista6, constituiu uma verdadeira fusão de vários tipos de património, que vão desde o natural, ao histórico, ao arqueológico e ao etnográfico7, como teremos ocasião de verificar mais adiante.

Aqui a costa é especialmente“…rochosa, elevada e agreste, onde os despenhadeiros, penhascos e precipícios são abundantes. Na maioria dos locais, as altitudes ultrapassam os 100 metros.”8 Caracteriza-se, nesse contexto, pela presença de rochedos isolados, esporões rochosos e altas falésias, bastante escarpadas, entrecortadas por praias, como as que mencionámos atrás.9

Foi e é este, portanto, o teatro de operações dos marisqueiros de Vila do Bispo e desta costa ocidental algarvia, a quem o investigador João Mariano, justamente, apelidou de Guerreiros do Mar10 e que Carlos Baptista designou, também, de “donos e senhores”11 da costa de Vila do Bispo. Pois esses senhores e guerreiros percorrem arduamente os 222 pontos costeiros, desde a Bordeira (Aljezur) até à Ingrina (Vila do Bispo), identificados por Carlos Baptista12 para extraírem das rochas o afamado marisco que tem um sabor, muito peculiar, a mar e que está presente em praticamente todos os estabelecimentos de restauração do território, dos mais conhecidos aos mais modestos. Contudo, antes de estarmos perante as aromáticas travessas em que nos são apresentados, a partir de onde, descansadamente instalados, os saboreamos, há todo um enorme e esforçado trabalho por detrás.

Poucos pensarão que o delicioso marisco fez e faz com que muitos bravos homens das terras de Vila do Bispo se lancem por gargantas rochosas abaixo (daquelas que fazem tremer muitos só de as olhar) à força de braço, auxiliados por cordas, tendo por instrumentos de trabalho as suas arrilhadas13 e os seus bornais (sacos de rede)14. Poucos são os que imaginarão que esses homens, após essas árduas subidas e descidas, têm de enfrentar a força poderosa das águas revoltas, percorrendo lajes, rochedos isolados, fundos de escarpa, sendo submersos (muitas vezes) pela espuma branca da rebentação. É aí que, seguindo um método ancestral15, arrancam dessas ásperas rochas, à força dos “…golpes rápidos e precisos…”16 das suas arrilhadas, várias pinhas dos afamados percebes, sendo na costa portuguesa considerados os melhores, aqueles que são extraídos dos rochedos da Costa Vicentina17.

Importante é, também, salientarmos que os mariscadores vila-bispenses dedicam-se, ainda, à apanha de outras espécies, muito populares, como as lapas, os mexilhões, os burgaus/burriés, os ouriços-do-mar, as navalheiras, as moreias, os bodiões, os polvos, os robalos, as safias e safios e (aquele que é considerado, por muitos, o rei da costa) o sargo.18

A vida e a atividade desses marisqueiros, verdeiros profissionais, é de grande risco, saltando entre rochedos, mergulhando e vindo à superfície, trepando cordas e subindo esforçadamente (carregados) tremendas paredes de falésias, demonstrando uma coragem, uma sabedoria, audácia e experiência próprias dos “velhos lobos-do-mar” a que dão corpo e com quem aprenderam a sua arte19. No imaginário local, designações e nomes, como os de “terror”, “bruxo”, Ramos, Mateus, Soromenho, Clímaco, Cachola, Boto, Barata, Maurício, Sousa, Mendes, Militão, Marreiros, Vitorino, Rita e Carvalho, entre tantos outros, são bem conhecidos e mereceram já lugares de destaque em trabalhos especializados nesta matéria.20

Esta profissão, este saber feito da experiência e este modo de estar na vida têm, contudo, profundas raízes em épocas mais recuadas, chegando à própria Pré-História.

No curso do trabalho que temos vindo a referenciar e que foi desenvolvido e publicado no ano de 2002, tivemos a feliz ocasião de registar o depoimento de um destes homens: José Jaime Sousa, então Comandante dos Bombeiros Voluntários de Vila do Bispo e mariscador. Acerca da apanha de percebes e do seu caracter ancestral este nosso colaborador disse-nos, a 27 de fevereiro:

Parece que está no sangue das pessoas…parece que é um jeito que as pessoas herdaram dos antepassados.”

E José Jaime foi, ainda, mais enfático noutra declaração que nos fez.

Parece que para as pessoas da Vila do Bispo parece que isto dos percebes já nasce com as pessoas.”21

No caso de Vila do Bispo, a sua abundância em termos de moluscos e de crustáceos foi importantíssima na vida das primeiras comunidades que aqui se estabeleceram e que se dedicaram, também, à recoleção de marisco, como testemunham os casos dos vários Concheiros existentes na costa ocidental do Concelho, mais concretamente, os das praias do Mirouço, Barriga, Cordoama e Castelejo.22 Porém, se a presença de percebes foi detetada no caso do último local mencionado, nos VI-V milénios A.C.23, mostrando, assim, a sua importante presença na vida das comunidades pré-históricas, essa mesma presença fez-se sentir, do mesmo modo, na experiência do derradeiro momento de passagem que é a morte, bem demonstrado pela descoberta, no ano de 1991, pelo investigador Mário Varela Gomes, de uma “…estrutura funerária…nas proximidades do Menir 1 da Pedra Escorregadia, perto de Vila do Bispo. Além dos vestígios pertencentes a cerca de 10 indivíduos e vestígios de cerâmicas…”24 foram encontradas unhas de percebes que, segundo esse vulto importante da Arqueologia em Portugal, seriam oferendas funerárias25, servindo, igualmente, para a “…constituição de leitos sobre os quais os corpos eram depositados.”26 Assim, o percebe nesta região, para além, do seu valor alimentar e económico, adquiriu, ainda, uma força que remete para o domínio da espiritualidade.

A riqueza do marisco neste território continuou, ao longo dos tempos, a constituir uma característica muito particular do mesmo. Por exemplo, no ano de 1600, o advogado Henrique Fernandes Sarrão, na “História do Reino do Algarve” de que foi autor, destacou a grande diversidade de espécies de peixe e marisco existentes, por esses tempos, na área costeira de Sagres, a saber:

  • Lagostas

  • Lavagantes

  • Santolas

  • Percebes

  • Mexilhões27

Assim foi e assim é. Ainda hoje todas estas espécies existem nesta zona costeira do Barlavento algarvio e continuam a ter lugar de destaque às mesas de cafés e restaurantes de Vila do Bispo.

Falámos de arrilhadas e de cordas – ferramentas fundamentais para a atividade dos mariscadores. Hoje estes homens partem para o mar vestindo fatos de mergulho, usam pranchas de Bodyboard e barcos com motor. Noutros tempos, de outras gerações de Vila do Bispo, os homens fabricavam o seu próprio calçado a partir de pneus de viaturas e a cordas que davam à costa (que eram entrançadas), mostrando-se bem aderente às rochas.28 Vestiam um ou dois pares de calças, camisolas de lã (de fabrico artesanal), uma casaca e uma cobertura para a cabeça.29 Além das imprescindíveis arrilhadas, chegaram a usar sachos grandes, os alviões30e chegava-se aos difíceis locais dessa intensa lavoura marítima, por cordas e em pequenas embarcações a remos.31

As gentes de Vila do Bispo nunca deixaram de olhar para o mar, nem para os seus generosos recursos. Efetivamente, a esforçada herança do passado local continua viva no seio dos marisqueiros deste território e na própria comunidade. Só deixará, contudo, de existir quando deixarem de existir Marisqueiros.

1BAPTISTA, Carlos Manuel Maximiano, “Os Marisqueiros de Vila do Bispo – Ensaio Etnográfico”, 2.ª edição, revista e aumentada, Vila do Bispo, Junta de Freguesia de Vila do Bispo, p. 2001, p.50.

2Ibidem, p.29.

3Ibidem, p.50.

4Ibidem, p.51.

5Idem, ibidem.

6Ibidem, p. 34-42.

7JESUS, Artur Vieira de, “A Costa Ocidental de Vila do Bispo – A importância da interpretação da Paisagem” in revista “Centros Históricos”, n.º10/11 – 2.ª Série, Lamego, Associação Portuguesa de Municípios com Centro Histórico, Janeiro/Junho de 2002, p. 31.

8Idem, ibidem.

9Idem.

10MARIANO, João, “Guerreiros do Mar”, S.l., Grupo Fórum, 1998.

11Carlos Baptista, op.cit., p.29.

12Ibidem, p.33-42.

13O instrumento de extração do percebe das rochas. Compõe-se de um cabo de madeira, com uma ponta de ferro, fazendo recordar um grande “escopro”.

14Carlos Baptista, op.cit., p.62.

15João Mariano, op.cit., p.20.

16Idem ibidem.

17Idem.

18Carlos Baptista, op.cit., p. 55-57.

19Carlos Baptista, op.cit., p. 74-76 e João Mariano, op.cit., p. 30, 34, 74, 75, 79, 110, 111, 151 e 155.

20Carlos Baptista, op.cit., p. 59.

21Artur Vieira de Jesus, op.cit., p.32.

22Ibidem, p. 31.

23Idem, ibidem.

24Idem.

25Idem.

26Idem.

27Duas Descrições do Algarve do Século XVI”, Lisboa, Sá da Costa Editora, 1983, p. 142.

28Artur Vieira de Jesus, p.31.

29Idem, ibidem.

30Idem.

31Ibidem, p. 32.

 

Bibliografia

BAPTISTA, C. M. Maximiano (2001) – Os Marisqueiros de Vila do Bispo – Ensaio Etnográfico. 2.ª edição, revista e aumentada. Vila do Bispo: Junta de Freguesia de Vila do Bispo.

JESUS, A. Vieira de (2002) – A Costa Ocidental de Vila do Bispo – A importância da interpretação da Paisagem. In revista Centros Históricos, 10/11 – 2.ª Série. Lamego: Associação Portuguesa de Municípios com Centro Histórico.

MARIANO, J. (1998) – Guerreiros do Mar. S.l. Lisboa: Grupo Fórum.

SARRÃO, H. Fernandes (1983) – História do Reino do Algarve (1600). In Duas Descrições do Algarve do Século XVI. Lisboa: Sá da Costa Editora.

Fig. 1 – Rochedos da costa ocidental de Vila do Bispo – pormenor. Foto de Arquivo da Câmara Municipal de Vila do Bispo.

Fig. 2 – Uma das muitas pontas rochosas conhecidas pelos homens do mar. Foto de Arquivo da Câmara Municipal de Vila do Bispo.

Fig. 3 – Falésias da costa ocidental de Vila do Bispo. Foto de Arquivo da Câmara Municipal de Vila do Bispo.

Fig. 4 – Perspetiva geral das Praias do Castelejo, Cordoama e Barriga. Foto de Arquivo da Câmara Municipal de Vila do Bispo.

Fig. 5 – Percebes e Arrilhada: uma combinação única em Vila do Bispo. Foto de Ricardo Soares.

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