8. Praia da Galé

8. Praia da Galé (N 380 12’ 22.3’’- W 80 46’ 33.5’’)

O acesso à Praia da Galé, no Município de Grândola, pode ser feito através do Parque de Campismo com o mesmo nome ou usando o acesso existente junto ao bairro habitacional localizado imediatamente a norte (N 380 12’ 22.2’’- W 80 46’ 25.5’’). Aqui a paisagem modifica-se e o enquadramento geológico altera-se de forma muito significativa. Deixamos as zonas litorais caracterizadas por campos dunares actuais de cotas baixas e adjacentes às praias emersas e, encontramos aqui as arribas formadas por rochas sedimentares detríticas não consolidadas (camadas horizontais de areias, com cascalheiras, siltes e argilas) de idade plio-plistocénica. Estes depósitos sedimentares estiveram associados à dinâmica sedimentar de uma rede hidrográfica exorreica controlada pelo levantamento tectónico do continente e pela manutenção do baixo nível do mar. Estes factores terão sido determinantes no progressivo encaixe da rede hidrográfica, no desenvolvimento de capturas fluviais e no escoamento e deposição em ambientes de transição fluvio-marinhos.

As arribas com rochas sedimentares do Plio-Plistocénico encontram-se expostas em diferentes zonas ao longo do ALTS (e.g. Praia do Pinheirinho; praias da Galé; Aberta Nova, limite norte da Lagoa de Melides; Praia das Areias Brancas; Praia do Fonte do Cortiço e Praia de Ribeira de Moinhos), numa extensão total de cerca de 26 km.

No topo da arriba no limite N do parque de campismo, (o trilho que conduz às escadas de acesso livre à praia segue sobre um campo dunar mais antigo que cobre as arribas que são constituídas por uma sequência sedimentar de rochas detríticas do Plio-Plistocénico (N 380 12’ 22.3’’- W 80 46’ 33.5’’; Figura 17).

Antes de descer para a praia é possível observar o aspecto geral das arribas que afloram nesta praia e ao longo de cerca de 13 km entre a Praia do Pinheirinho e a Praia da Aberta Nova.

Figura 17- Vista panorâmica para N da Praia da Galé. Note-se a arriba constituída por rochas sedimentares detríticas pouco consolidadas e que está coberta por dunas com vegetação. Na base da arriba são bem visíveis os cones de dejecção (cor amarelada-alaranjada em contraste com a cor mais clara da areia da praia) no limite interno da praia emersa. No topo da berma/face da praia observam-se formas rítmicas designadas por crescentes de praia.

A arriba da Praia da Galé é constituída por rochas sedimentares detríticas pouco consolidadas do Cenozóico (Plio-Plistocénico), estando coberta por dunas. A arriba é constituída por camadas horizontais de areias amareladas, alaranjadoacastanhadas e esbranquiçadas (a coloração depende dos minerais que constituem os sedimentos e do grau de oxidação dos mesmos) e também de cascalheiras e argilas (Figuras 18, 19 e 20). Estas rochas sedimentares estão relativamente pouco consolidados pelo que são vulneráveis à erosão por acção das águas das chuvas (erosão subaérea). Este tipo de erosão produz o ravinamento das arribas (Figura 21) e a formação de chaminés de fada (Figura 22). Estas formas particulares de erosão que representam cones de sedimento que sustêm no seu topo um detrito de maior dimensão, que funciona como protector da erosão (e.g. um grão de cascalho). A acumulação de sedimentos na base das arribas surge sob a forma de cones de dejecção (Figura 23).

Figura 18- Pormenor das camadas horizontais (alternância de laminações mais claras e mais escuras) de areias do Plio-Plistocénico que constituem as arribas da Praia da Galé.

Figura 19- Pormenor das camadas constituídas por areias grosseiras e cascalho do Plio- Plistocénico, que constituem as arribas da Praia da Galé.

Figura 20- Sequência sedimentar horizontal com alternâncias de areias e cascalheiras do Plio- Plistocénico, que representa a arriba na Praia da Galé (junto ao acesso S do parque de campismo).

Figura 21- Aspecto geral do efeito do ravinamento provocado pela erosão subaérea (escorrência da água da chuva ) sobre rochas sedimentares detríticas pouco consolidadas da arriba da Praia da Galé.

Figura 22- Pormenor da escorrência superficial da água da chuva sobre as rochas sedimentares pouco consolidadas da arriba da Praia da Galé. Note-se formas particulares de escorrência em cone com uma partícula de maiores dimensões no topo (chapéus de fada).

Figura 23- Cones de dejecção na base das arribas. Estes cones de dejecção são constituídos por sedimentos provenientes das arribas (acastanhado-alaranjado) e/ou por areias das dunas que cobrem o topo da arriba (esbranquiçado).

Os cones de dejecção fazem a transição entre a arriba e a praia emersa. Os sedimentos que formam os cones de dejecção são uma fonte sedimentar para a praia e para a zona costeira adjacente (através do transporte longitudinal no ALTS). Durante a ocorrência de temporais no oceano, a praia diminuiu de largura e as ondas podem atingir a base da arriba e transportar parte dos sedimentos retidos no cone de dejecção. Estes sedimentos entram assim num novo ciclo de transporte e selecção ao longo da linha de costa.

Na Praia da Galé a praia emersa é, regra geral, estreita apresentando no período de Verão uma berma extensa adjacente aos cones de dejecção (Figura 17). Por vezes é possível observar a formação de uma duna incipiente com alguma vegetação a cobrir os sedimentos de alguns destes cones (Figuras 17 e 23). Estas dunas incipientes são formadas a partir da remobilização, pelo vento, das areias mais finas provenientes da praia.

Na face da praia são geralmente visíveis crescentes de praia que se estendem ao longo da linha de costa (Figura 17). A inclinação da face da praia varia entre 6 e 8º.

No que se refere aos sedimentos da praia emersa, a Praia da Galé apresenta areias grosseiras (Figura 24). As areias são maioritariamente formadas por grãos provenientes da erosão das arribas (quartzo e quartzito) e por areias que sofre transporte ao longo da linha de costa. São ainda visíveis fragmentos de conchas.

Figura 24- Pormenor das areias grosseiras da Praia da Galé.

Para sul, deslocando-nos por cerca de 1 km é possível observar na arriba que as areias e cascalheiras do Plio-Plistocénico assentam em argilitos, siltitos e arenitos finos com cimento argiloso (N 380 12’ 22.3’’- W 80 46’ 33.5’’). Estas rochas sedimentares de cor amarelada, esverdeado-acinzentada e esbranquiçada contêm fósseis (conchas) são as mais antigas (Miocénico) da sequência sedimentar que constitui as arribas do Cenozóico do ALTS (Figuras 25 e 26). No final do Miocénico a sedimentação terá sido por leques aluviais no sopé de escarpas de falhas activas em redes hidrográficas endorreicas e também, por sedimentação com influência fluvial a marinha durante eventos transgressivos (subida do nível médio das águas do mar).

Figura 25- Arriba com rochas sedimentares detríticas amareladas, esverdeado-acinzentadas e esbranquiçadas com fósseis (conchas) da base da sequência sedimentar cenozóica.

Figura 26- Pormenor dos arenitos com cimento argiloso que incluem fósseis (conchas) que são encontrados na base da arriba para S da Praia da Galé.

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