7. Praia da Mareta

7. Praia da Mareta (N 37º00’21,1’’ - W 08º56’27’’)

Ao longo da praia da Mareta é possível observar com detalhe os sedimentos calcários depositados durante o Jurássico médio (~175-161 Ma). As formações desta idade, sedimentaram após uma fase de acentuada erosão, generalizada a toda a Bacia Algarvia, marcada pela presença de uma descontinuidade na sua base e pela ausência dos sedimentos do Jurássico inferior terminal e da base do Jurássico médio (Azeredo, 2003). Globalmente a sequência de sedimentos observável na praia da Mareta representa uma tendência que não é restrita ao sector de Sagres, antes estendendo-se a toda a bacia, de crescente profundidade da coluna de água, com os sedimentos mais antigos formados a menor profundidade enquanto os sedimentos mais recentes se formam a maiores profundidades. O registo sedimentar revela que a sedimentação mais antiga ocorre, na zona de Sagres, em ambiente de pequena profundidade, nas proximidades do litoral, com a formação de recifes de coral. Estes sedimentos são gradualmente recobertos por calcários margosos – sedimentos hemiplágicos - indicando um gradual aumento da profundidade da coluna de água. O final da sequência sedimentar do Jurássico médio é caracterizada por mais um evento erosivo forte antes do início da sedimentação do Jurássico superior, por vezes associada a desenvolvimento intenso de óxidos e hidróxidos de ferro, bem visível pela cor avermelhada dos sedimentos.

Nesta praia, a sequência bem preservada do Jurássico médio deste sector da Bacia Algarvia também inclui um exemplar bem preservado de um antigo banco de coral.

O registo sedimentar, neste local, não inclui sedimentos do intervalo que medeia entre o Jurássico superior e o Neogénico. Os únicos testemunhos de atividade sedimentar posterior ao Jurássico médio, correspondem a dunas consolidadas (de idade indeterminada, às quais poderá ser atribuído um posicionamento cronológico genérico de Plio-Quaternário) e a areias de praia recentes.

Figura 22 - Vista global da praia da Mareta, do nível da areia para E. No plano mais próximo observam-se os sedimentos mais antigos do Jurássico médio, datados do Aaleniano (Aa), sobre os quais assentam discordantes os calcários detríticos do Bajociano (Bj). São visíveis na arriba NE os sedimentos de cor cinzento-esverdeado (à esquerda, junto ao restaurante) datados do Batoniano (Bt), sobre os quais assentam os sedimentos de cor mais clara (amarelados) cujo conteúdo fossilífero permitiu datá-los do Caloviano (Cv). Os sedimentos mais escuros visíveis no extremo da arriba (Ponta da Atalaia) correspondem já a sedimentos carbonatados, do tipo dolomítico, do Jurássico superior (JS).

Figura 23 - Aspeto geral das formações presentes na arriba SW da praia da Mareta. A - Discordância do Jurássico superior (a esquerda na foto) com um aspeto compacto, sobre o Jurássico médio (centro da fotografia) no qual a estratificação é mais visível. A direita da foto observa-se uma duna consolidada. A fotografia é retirada da praia da Mareta para SW, com vista para o forte de Sagres (no topo da arriba. É bem visível nesta foto as diferenças no tipo de sedimentação entre o Jurássico médio e o Jurássico superior. B – Esquema explicativo.

Os sedimentos mais antigos observáveis na praia da Mareta correspondem a unidades recifais, de idade Aaleniana, que se encontram carsificadas por um período de exposição sub-aérea. Este afloramento corresponde a um antigo banco de coral, existindo outras evidências deste tipo de sedimentação na vizinhança. Este tipo de corais apenas se desenvolve em zonas de pequena profundidade, de águas quentes e límpidas, constituindo um excelente indicador das condições paleoambientais desta zona durante o Aaleniano. Neste afloramento são visíveis os organismos construtores de recifes, na sua posição de vida.

Figura 24 - Vista aérea geral da praia da Mareta (GoogleMaps) com a localização assinalada a vermelho da bio-construção (recife) do Jurássico médio.

Figura 25 - Vista geral do recife de coral do Aaleniano

Figura 26 - Organismos construtores do recife na sua posição de vida. A caixa vermelha encontra-se ampliada na fotografia seguinte.

Figura 27 - Pormenor da fotografia anterior, onde se pode observar com detalhe a estrutura interna dos organismos construtores do recife.

O recife de coral apresenta evidências de ter sofrido meteorização, com desenvolvimento de cavidades (que no caso dos calcários se designa por carsificação), antes da deposição dos sedimentos do Bajociano, que colmatam algumas dessas cavidades.

As evidências associadas à carsificação do recife de coral mostram este deverá ter estado exposto em condições sub-aéreas antes do início da sedimentação marinha do Bajociano. Esta exposição poderá ter sido o resultado de um período de acentuada descida do nível do mar, antes da fase de aprofundamento da bacia que se seguiu durante todo o resto do Jurássico médio.

Figura 28 - Sedimentos do Bajociano (bem estratificados) discordantes sobre o recife de coral do Aaleniano. A relação geométrica entre as duas formações revela estarmos perante dois eventos sedimentares distintos, com um episódio erosivo intercalado. Nalguns pontos do afloramento é visível a existência de cavidades cársicas no recife, preenchidas por sedimentos do Bajociano.

Os sedimentos consolidados mais recentes, observáveis na praia da Mareta correspondem a antigas dunas, atualmente consolidadas, que se terão desenvolvido durante um período em que o nível do mar se encontraria mais baixo. Não existindo uma datação rigorosa destes sedimentos, apenas os poderemos posicionar cronologicamente de uma forma grosseira, dizendo que deverão ser do Plio-Quaternário. Apesar de a maior porção de duna consolidada se encontrar no sector SW da praia, é possível encontrar fragmentos ao longo de quase toda a praia. Esta duna consolidada está a ser erodida pela ação do mar, revelando que as condições sob as quais se formou seriam acentuadamente diferentes das atuais.

Figura 29 - Vista para Leste de duna consolidada no extremo SW da praia da Mareta. São bem visíveis as diferenças do aspeto dos calcários esbranquiçados, com uma estratificação sub-horizontal bem marcada (à direita) e a duna consolidada, com uma estratificação menos marcada, a inclinar para o mar (à esquerda). A duna é o resultado de processos que decorreram num período em que a geografia da região era distinta, com o nível do mar mais baixo do que o atual.

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