Troço entre Sines e Vila Nova de Milfontes

Ambiente geomorfológico

O cabo de Sines coincide com uma mudança significativa da natureza geológica da faixa costeira incluindo o leito marinho. Neste troço a linha de costa surge mais acidentada, apresenta mais frequentemente áreas rochosas, de calcário de origem metamórfica e arenito, e o leito marinho apresenta elevada abundância de recifes rochosos naturais. Em Porto Covo surge uma ilha, a Ilha do Pessegueiro, que é parte de um importante maciço rochoso que se prolonga pelo leito marinho.

A transição abrupta da natureza do leito que se verifica a Sul do cabo de Sines marca o limite Sul de influência do transporte sedimentar a partir do estuário do rio Sado e reflete o efeito de barreira que o cabo de Sines exerce sobre a deriva costeira limitando o movimento dos sedimentos ao longo da costa em direção ao Sul. A redução do aporte de areias para a linha de costa presente entre Sines e Vila Nova de Milfontes é o seu principal fator modelador pois, a ausência da introdução de inertes potencia a erosão marítima do talude de costa expondo os afloramentos rochosos existentes. Deste modo, neste troço o talude de costa forma uma arriba interrompida frequentemente por praias e o leito marinho apresenta abundância de recifes rochosos.

No troço entre Sines e Vila Nova de Milfontes destaca-se um grande maciço rochoso que está exposto na região de Porto Covo. Devido à presença deste afloramento, o leito marinho caracteriza-se pela presença frequente de grandes recifes rochosos naturais até cotas de profundidade superiores a - 35 m. Entre estes recifes naturais destaca-se a área rochosa que se prolonga em torno da Ilha do Pessegueiro e desta estrutura para Norte até ao porto de abrigo de Porto Covo. Nesta área contam-se inúmeros recifes rochosos de grandes dimensões repletos de cavidades, que servem de suporte para a fixação de macroalgas e invertebrados sésseis (como esponjas, anémonas e gorgónias) mas também constituem abrigo para inúmeras espécies de peixes e invertebrados de vida livre.

No troço de costa que se estende para Sul a partir da Ilha do Pessegueiro, apesar da morfologia do talude de costa se manter, assiste-se a uma alteração do leito marinho. Neste troço os recifes rochosos tornam-se menos frequentes e apresentam menor heterogeneidade morfológica já que são maioritariamente grandes lajões de natureza calcária e xistosa.

Nas áreas adjacentes a Vila Nova de Milfontes, devido à presença do estuário do rio Mira, o leito marinho torna-se predominantemente arenoso, apesar do talude de costa formar uma falésia, que indica claramente que, apesar do rio Mira debitar inertes nesta área costeira, a erosão da linha de costa associada ao hidrodinamismo marinho está bem patente. Nestas áreas, os afloramentos rochosos existentes no andar infralitoral surgem próximos do limite da fronteira entre o meio marinho e o meio terrestre, sendo mais frequentes em cotas de profundidade entre os 0 e os -10/15m de profundidade. Uma vez que os maciços rochosos existentes surgem em cotas de profundidade fortemente afetadas pelo hidrodinamismo, a sua heterogeneidade morfológica tende a ser reduzida devido à erosão resultante da ação da ondulação.

Biótopos intertidais e infratidais

A heterogeneidade geomorfológica presente na faixa de costa que se estende entre Sines e Vila Nova de Milfontes permite o estabelecimento de ecossistemas distintos entre os quais, se destacam os presentes no maciço rochoso presente na região de Porto Covo. Nesta faixa costeira surgem biótopos intertidais e circatidais típicos das zonas rochosas, biótopos intertidais e circatidais típicos de zonas arenosas e biótopos infra-litorais típicos de áreas mistas. Estes biótopos apresentam elevada heterogeneidade em função da exposição ao hidrodinamismo, em função da inclinação das falésias e arribas e, no caso dos biótopos infra-litorais presentes nos afloramentos rochosos, em função da heterogeneidade morfológica dos recifes e da sua profundidade.

Nas áreas predominantemente arenosas os biótopos intertidais e subtidais apresentam baixa densidade e diversidade de espécies dado não existirem estruturas de suporte para a fixação de macroalgas e invertebrados sésseis que ocorrem em substrato sólido; a introdução de matéria orgânica proveniente fontes exógenas permanecer baixa e portanto não permitir o desenvolvimento de uma comunidade rica e abundante de invertebrados detritívoros; e o hidrodinamismo não ser suficientemente reduzido para permitir o estabelecimento de bancos de plantas marinhas nem de comunidades de invertebrados que ocorrem nas áreas arenosas menos expostas à ação da ondulação.

Biótopos intertidais

Nas áreas de intertial rochoso as comunidades presentes dispõem-se em função da exposição à ação das ondas e inclinação das falésias/arribas. Nos locais em que o talude da plataforma de maré surge menos alcantilado, as comunidades intertidais estão presentes em áreas mais extensas do que nos locais em que o talude costeiro é vertical. Nos locais mais protegidos do hidrodinamismo, as comunidades intertidais surgem bem estratificadas e mais diversas do que nas áreas mais expostas à ondulação.

No limite superior de influência do mar sobre as comunidades biológicas surge o andar supralitoral. Neste andar ocorre a transição entre organismos tipicamente terrestres para organismos adaptados à vida em meio marinho. Assim, este andar corresponde ao limite inferior de distribuição das espécies adaptadas à vida em meio terrestre, e ao limite superior de distribuição das espécies adaptadas à vida em meio marinho.

No limite superior do andar supralitoral a fitocenose é composta por halófitas terrestres de porte herbáceo que transitam para uma biocenose predominantemente composta por líquenes como a Verrucaria maura, que apresenta uma pigmentação escura de aspeto viscoso sobre as rochas e a Lichina pygmaea, que se assemelha a uma alga muito escura, no limite de influência da aspersão das ondas no supralitoral. Nesta área a zoocenose (comunidade de fauna) é predominantemente composta por gastrópodes marinhos muito resistentes à dessecação e variação de salinidade como a Melarhaphe neritoides e a Littorina saxatilis.

Ainda no andar supralitoral e limite superior do andar médio-litoral (intertidal) surge uma biocenose representada sobretudo por cracas (Chthamalus montagui e Chthamalus stellatus) que formam povoamentos densos que ocupam a maior parte da área de substrato fixo disponível. Nestes povoamentos surgem espécies de gastrópodes como a Cymbula safiana, as lapas Patella rustica e Patella depressa e os burriés da espécie Phorcus lineatus que são espécies resistentes à exposição às condições atmosféricas. Mais abaixo no limite superior do intertidal surgem povoamentos de burriés do Género Gibbula que se distinguem de P. lineatus pelo padrão colorido de suas conchas.

No médio-litoral as comunidades presentes são tipicamente marinhas e apresentam uma diversidade e densidade elevadas. Neste andar as macroalgas e invertebrados podem surgir estratificados em função do tempo de exposição à luz solar e hidrodinamismo. No troço entre Sines e Vila Nova de Milfontes apenas surgem pontualmente áreas protegidas da ondulação e como tal as comunidades intertidais raramente surgem bem estratificadas. Não obstante, usualmente surgem dois grandes estratos bem definidos: um composto por bodelha (Fucus spp.) no limite superior do médio-litoral e um segundo estrato onde predominam as algas vermelhas incrustantes e calcarias e onde surgem povoamentos de algas verdes, algas vermelhas não calcarias e algumas espécies de algas castanhas numa distribuição em mosaico.

Nas rochas presentes no intertidal das praias na faixa de costa entre Sines e Vila Nova de Milfontes os povoamentos de algas no limite superior do intertidal são exclusivamente compostos por algas verdes da espécie Ulva intestinalis muito resistentes à dessecação.

 

Biótopos infratidais

Os biótopos presentes na zona infratidal até à cota dos -30 m de profundidade são muito variáveis no troço de costa entre Sines e Vila Nova de Milfontes. Na zona de Porto Covo, a presença de recifes rochosos de grandes dimensões e com morfologias muito heterogéneas cria condições favoráveis para a ocorrência de um grande número de espécies de algas, invertebrados e peixes. Neste local surgem biótopos típicos das zonas rochosas, biótopos mistos e biótopos típicos de zonas arenosas.

Os biótopos presentes nos recifes rochosos variam em função da heterogeneidade morfológica dos recifes, com o grau de exposição à luz solar e com a exposição à ondulação. Na região de Porto Covo surge uma grande diversidade de recifes rochosos. Surgem recifes que ascendem de cotas próximas dos -35/-30 m ou -15/-10 m até à superfície ou cujo topo surge muito próximos desta mas permanecem submersos em cotas variáveis entre os 0 e os -5 m, e recifes junto ao leito marinho, com uma altura de cerca de 3 a 5 m que formam grandes lajões em cotas de profundidade muito variáveis (entre os 0 e os -30 m de profundidade).

A Sul da Ilha do Pessegueiro, os biótopos predominantes são de natureza arenosa e mista, surgindo grandes lajões rochosos a cotas pouco profundas entre os 0 e os -10 m de profundidade. Pontualmente, no troço entre o limite Sul do recife rochoso a partir do qual emerge a Ilha do Pessegueiro e Vila Nova de Milfontes, surgem peões e outros grandes recifes rochosos junto às arribas e falésias. Em locais mais afastados das falésias surgem recifes rochosos de menores dimensões dispersos num meio predominantemente arenoso.

Na região de Vila Nova de Milfontes, o ambiente é predominantemente arenoso.Nas áreas pouco profundas mais afetadas pela ação das ondas e deriva costeira, surgem pontualmente recifes rochosos pouco heterogéneos porque são permanentemente erodidos pelos sedimentos transportados pelas ondas ou pelas correntes. Neste local os biótopos predominantes são típicos das regiões arenosas.

Os biótopos mais ricos presentes no infratidal entre Sines e Vila Nova de Milfontes surgem nos recifes rochosos presentes em Porto Covo. Graças à sua heterogeneidade morfológica, e ao facto de surgirem em cotas de profundidade muito variáveis, estes recifes permitem a fixação de duas biocenoses bem distintas: os povoamentos de macroalgas nos locais mais próximos da superfície e os povoamentos de invertebrados sésseis nas áreas menos expostas à luz solar.

As comunidades de macroalgas presentes nos recifes rochosos variam com a natureza do substrato exposição à ondulação e profundidade. Nos recifes presentes encontram-se sobretudo algas vermelhas calcáreas, incrustantes e folhosas, e algas castanhas sobretudo filiformes. Pontualmente, surgem povoamentos de laminárias como a Saccorhiza polyschides.

A profundidade em que se observa a transição entre a biocenose das macroalgas para a biocenose predominantemente composta por invertebrados varia em função da orientação da superfície em relação ao Sol e em média ocorre entre os -10 e os -15 m. A partir desta profundidade assiste-se à transição da composição das comunidades que ocupam o substrato rochoso por inúmeras espécies de invertebrados sésseis, como anémonas, esponjas, gorgónias, briozoários e anelídeos sésseis ou que formam galerias na superfície rochosa. A composição das comunidades de invertebrados sésseis presentes abaixo dos -10/-15 m é ditada pelo hidrodinamismo, influência da ondulação e pela disponibilidade de partículas de matéria orgânica suspensas na coluna de água. Assim, nas áreas mais expostas à ondulação predominam espécies de pequeno porte ou que surgem profundamente incrustadas na rocha como as anémonas, as esponjas, os briozoários e os anelídeos. Inversamene, nas zonas mais abrigadas da ondulação, como os enclaves, e nos locais mais profundos abundam as espécies de maior porte como as gorgónias.

As comunidades de ictiofauna variam muito significativamente em função da heterogeneidade morfológica presente nos recifes rochosos e biocenoses presentes sobre o substrato. A presença de enclaves, fissuras, reentrâncias e pequenas grutas cria condições para a fixação de inúmeras espécies de góbios, blénios, esparídeos, labrídeos e algumas espécies de serranídeos que aí encontram abrigo e alimento bem como locais apropriados para se reproduzir. As comunidades de macroalgas e de invertebrados que se distribuem na superfície rochosa dos recifes constituem a base da dieta alimentar de inúmeras espécies de peixes e invertebrados de vida livre tendo um papel muito relevante na estruturação dos ecossistemas presentes nestes biótopos.

A exposição do troço entre Sines e Vila Nova de Milfontes à ação das ondas e correntes marinhas superficiais e ausência de fontes de matéria orgânica na mesma ordem de grandeza que se pode observar em zonas estuarinas tem um efeito muito significativo sobre as comunidades presentes nas zonas arenosas que, face à inexistência de bancos de plantas marinhas e abundância de matéria orgânica são compostos por um conjunto reduzido de espécies de anelídeos, bivalves, gastrópodes, isópodes e decápodes, que ocorrem em baixa densidade.

Nas áreas de fronteira entre os recifes rochosos e nas áreas arenosas surgem ambientes ricos em matéria orgânica onde se estabelecem comunidades mistas de espécies típicas de ambientes rochosos e de ambientes arenosos. Entre as espécies típicas de ambientes arenosos destacam-se os anelídeos e peixes bentónicos como as raias (Raja sp. e Torpedo sp.), os linguados (Solea sp.), a solha (Pleuronectes platessa), o peixe-lagarto (Synodus saurus), o peixe-pau (Callionymus lira) e o pregado que desenvolveram morfologias e padrões de coloração adaptados à vida em substrato arenoso. Estas comunidades, estão associadas aos limites dos recifes rochosos e diferem das comunidades típicas que ocorrem em substrato rochoso pelo facto de incluírem espécies adaptadas à vida em substrato móvel.

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