Troço entre Vila Nova de Milfontes e o cabo Sardão

Ambiente geomorfológico

A linha de costa entre Vila Nova de Milfontes e o cabo Sardão em termos geomorfológicos é semelhante à linha de costa presente entre Sines e Vila Nova de Milfontes. O limite entre o meio terrestre e o marinho é uma arriba rochosa pouco consolidada frequentemente interrompida por praias arenosas. A diferença entre este e o troço entre Sines e Vila Nova de Milfontes faz-se notar ao nível do andar infralitoral, que neste troço de costa, devido à introdução de sedimento pelo rio Mira, tem natureza predominantemente arenosa apresentando pontualmente recifes rochosos perto do limite de costa a cotas de profundidade expostas à ondulação e correntes marinhas superficiais (entre os 0 e os -12 m de profundidade). Nas zonas em que o leito marinho surge a maior profundidade a natureza do leito é arenosa.

A grande maioria dos recifes rochosos presentes entre Vila Nova de Milfontes e o cabo Sardão surgem junto do leito marinho e raramente se elevam mais do que 3-4 m em relação ao mesmo. A sua morfologia, por estarem sob forte influencia da rebentação das ondas é pouco variável sendo pouco comum a existência de fissuras, enclaves e grutas que possam ser utilizadas por espécies de maior porte, ou mesmo por grupos de espécies gregárias.

Biótopos intertidais

No troço de costa entre Vila Nova de Milfontes e o cabo Sardão surgem três tipos geomorfológicos principais no andar médio-litoral que têm uma grande relevância na estruturação das comunidades presentes:

  • As arribas costeiras;
  • As planícies extensas de natureza arenosa pouco declivosas presentes nas praias;
  • As planícies de natureza rochosa pouco declivosas presentes nas praias.

A área de distribuição das comunidades intertidais presentes nas arribas costeiras é determinada pela influência da ondulação. Contudo, em comparação com um ambiente rochoso pouco alcantilado tendem a ocupar uma área menor devido à verticalidade das arribas costeiras. Nas arribas costeiras presentes no troço de costa entre Vila Nova de Milfontes e o Cabo sardão as comunidades do intertidal tendem a ser relativamente homogéneas refletindo a elevada influência da ondulação. Surgem assim dois andares bem definidos, o supra-litoral e o médio-litoral.

Nas áreas em que a rocha que constitui as arribas surge mais consolidada observam-se povoamentos de líquenes das espécies Lichina pygmaea e Verrucaria maura, cracas como Chthamalus spp., lapas como Patella rustica e alguns gastrópodes resistentes à exposição às condições atmosféricas como algumas espécies do género Littorina. Nas áreas onde a arriba costeira surge pouco consolidada o supralitoral surge confinado a rochas e pedras parcialmente expostas pela erosão da arriba.

As biocenoses presentes na região do médio litoral nas arribas entre Vila Nova de Milfontes e o Cabo Sardão são compostas principalmente por espécies de algas castanhas e vermelhas com talos filiformes que surgem bem fixas à superfície rochosa e por espécies de algas vermelhas calcáreas incrustantes por serem particularmente resistentes à erosão resultante da ondulação. Nos locais onde se formam enclaves são frequentes os povoamentos densos de percebes (Pollicipes pollicipes) e de mexilhão (Mytilus galloprovincialis).

Nas planícies arenosas na proximidade das praias as comunidades intertidais apenas se distribuem no médio litoral e são compostas por espécies de bivalves, gastrópodes e anelídeos. De um modo geral, estas comunidades surgem pouco densas e são compostas por um número reduzido de espécies.

Nas planícies rochosas pouco declivosas presentes nas áreas de praia, as comunidades apenas ocorrem nos blocos de rocha de maiores dimensões, que ficam mais expostos às condições atmosféricas. A biocenose presente é composta por povoamentos de líquenes (Verrucaria maura e Lichina pygmaea), por povoamentos densos e extensos de cracas (Chthamalus spp.), por indivíduos dispersos de lapas (Patella rustica) e, nos enclaves, ocorrem povoamentos de gastrópodes (Littorina spp.).

A composição das comunidades presentes no médio-litoral das regiões rochosas pouco declivosas é fortemente condicionada pela rebentação das ondas. Uma vez que, no troço de costa em análise, a maioria das planícies rochosas presentes no médio-litoral inseridas em zonas de praia arenosa são pouco heterogéneas em termos de morfologia, as comunidades presentes tendem a ser representadas por um reduzido número de espécies. No limite superior do médio-litoral surgem povoamentos densos de Ulva intestinalis e Ulva lactuca que são duas algas verdes muito resistentes à exposição às condições atmosféricas. Na região média e inferior do médio-litoral surgem espécies de algas castanhas e algas vermelhas filamentosas homogeneamente distribuídas. Nos povoamentos de macroalgas é comum a ocorrência de anémonas (Anemonia viridis e Actinia fragacea) e lapas (Patella rustica). Nos pequenos enclaves presentes surgem equinodermes (Asterias rubens), góbios (Gobius paganellus), blénios (Lipophrys pholis), caranguejos (Carcinus maenas, Eriphia verrucosa e Pachygrapsus marmoratus), camarões (Palaemon elegans) e algumas algas como o Codium tomentosum e a Bifurcaria bifurcata que aí são menos afetados pela rebentação das ondas e exposição às condições atmosféricas.

Biótopos infratidais

Os biótopos presentes no infratidal da faixa costeira entre Vila Nova de Milfontes e o Cabo Sardão são de três tipos principais:

  • Os biótopos típicos das zonas arenosas com pouca disponibilidade de nutrientes;
  • Os biótopos típicos das zonas rochosas presentes nas arribas costeiras;
  • Os biótopos de características mistas presentes em recifes rochosos de pequenas dimensões.

Os biótopos presentes nas zonas arenosas refletem a elevada dinâmica da ondulação, correntes superficiais e deriva costeira e a escassez de fontes de matéria orgânica e nutrientes no troço de costa em análise. As comunidades presentes são representadas por um pequeno número de espécies de anelídeos, bivalves e gastrópodes que ocorrem em densidades baixas.

Os biótopos infralitorais presentes no sopé das arribas costeiras mantêm comunidades típicas de zonas infratidais mistas sujeitas a forte ondulação, pois, apesar da presença de superfícies sólidas, o substrato nas áreas adjacentes é arenoso. De um modo geral, nos locais mais próximos da superfície surge uma biocenose composta por espécies de macroalgas filamentosas castanhas e vermelhas de pequenas dimensões, que são particularmente resistentes à ação da ondulação, que, em função da profundidade, é progressivamente substituída por uma biocenose predominantemente composta por invertebrados como anémonas, alcionários, briozoários, esponjas e anelídeos. Na base da arriba, na zona de fornteira entre a superfície rochosa e a areia surgem comunidades típicas de ambientes arenosos cuja densidade e riqueza específica depende da produtividade das comunidades presentes nas superfícies rochosas que são a única fonte de matéria orgânica que sustenta grande parte das espécies presentes em substrato móvel.

Nas áreas onde ocorreram desabamentos associados à erosão da arriba o leito marinho surge mais heterogéneo com grandes blocos com cavidades e fissuras onde se fixam inúmeras espécies de macroalgas e invertebrados, e onde ocorrem muitas espécies de vida livre incluindo peixes. Nos locais mais profundos, ou abrigados, onde a ação da ondulação se faz sentir com menor intensidade, as comunidades presentes nos blocos desagregados da arriba apresentam um maior número de espécies pois, não só a morfologia do leito surge mais heterogénea como a pressão seletiva associada à ação das ondas é menor.

Tal como foi referido anteriormente, dada a influência da deriva costeira e ondulação na modelação da linha de costa que se estende entre Vila Nova de Milfontes e o Cabo Sardão os recifes rochosos presentes neste troço de costa têm pequena dimensão, surgem pouco elevados em relação ao leito, mantêm uma morfologia pouco heterogénea e surgem a cotas de profundidade sob forte influência da erosão marinha. Assim, as comunidades presentes são características de ambientes mistos e são compostas por espécies adaptadas a ambientes com um elevado hidrodinamismo.

Dada a baixa profundidade a que a maioria dos recifes rochosos se encontram no troço de costa em análise, as superfícies rochosas surgem cobertas por uma biocenose de macroalgas em que predominam espécies de algas vermelhas calcáreas e incrustantes e espécies de algas vermelhas e castanhas filamentosas. Nos enclaves surgem algas de maior dimensão como o Codium tomensosum, a Cystoseira humilis e o Sargassum sp.. A fauna séssil presente nos recifes rochosos é sobretudo representada por esponjas, antozoários, cirrípedes, isópodes, anelídeos, anémonas, equinodermes e grandes povoamentos de mexilhão.

Nas pequenas fissuras e enclaves presentes surgem espécies de peixes crípticos como blénios (Parablennius pilicornis) e góbios (Gobius cobitis), e nas áreas de fronteira entre os recifes e as zonas arenosas que permanecem mais abrigadas ocorrem espécies de decápodes e gastrópodes típicos de biótopos de substrato móvel. Nos recifes é comum a presença de pequenos cardumes de espécies gregárias, como sargos (Diplodus spp.) e salemas (Sarpa salpa) que aí se alimentam.

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