Troço entre o cabo Sardão e o cabo de S. Vicente

Ambiente Geomorfológico

A natureza geológica e características do leito na região costeira entre o cabo Sardão e o Cabo de S. Vicente são distintas das identificadas no troço entre Vila Nova de Milfontes e o cabo Sardão devido à combinação de quatro fatores:

  • O evento geológico que esteve na base da formação da Serra do Cercal;
  • A erosão do maciço rochoso pelo mar e pela chuva;
  • O efeito de barreira sobre a deriva costeira associado à presença do cabo Sardão;
  • A presença pontual de linhas de água ao longo deste troço de costa.

O aumento da compactação da rocha sedimentar associado ao evento geológico que esteve na origem da Serra do Cercal teve como consequência a formação de um grande maciço xistoso que se estende desde a base, abaixo do nível do mar, até ao topo das arribas costeiras. Assim, o limite entre o meio terrestre e o meio marinho ao longo deste troço corresponde a uma falésia de grandes dimensões onde predominam o xisto, a ardósia e rochas calcárias muito compactadas.

A erosão físico-química, por ação do mar e da chuva, dos diferentes tipos de rocha presentes nas falésias esteve na base da linha de costa muito entalhada que se estende ao longo do troço entre o cabo Sardão e o cabo de S. Vicente.

O efeito de barreira sobre a deriva costeira que está associado à presença do cabo Sardão potenciou significativamente a erosão costeira neste troço de costa e teve um papel fundamental na modelação do leito marinho que, junto à linha de costa mantém uma natureza rochosa.

A presença pontual de linhas de água como a ribeira do Porto das Barcas, ribeira da Zambujeira, ribeira do Carvalhal, ribeira de Odeceixe, a ribeira de Aljezur, a ribeira da Carrapateira, entre outras linhas de água tem um papel muito relevante na formação de praias e modelação da natureza do leito marinho que apresenta uma natureza rochosa junto à falésia e torna-se progressivamente arenoso à medida que nos afastamos destes pontos.

O leito marinho neste troço de costa apresenta elevada heterogeneidade surgindo seis tipos principais de substrato:

  • Áreas de substrato arenoso;
  • Lajões rochosos de média/grande dimensão na área de rebentação das ondas;
  • Lajões rochosos de média/grande dimensão em zonas mais afastadas da costa fora da área de rebentação das ondas;
  • Recifes rochosos de média/grande dimensão;
  • Parede vertical representada pela falésia;
  • Desabamentos no sopé das falésias.

Biótopos intertidais

A natureza, inclinação, extensão e exposição à ondulação são fatores modeladores muito relevantes nas comunidades intertidais presentes no troço de costa entre o cabo Sardão e o cabo de S. Vicente. Dada a heterogeneidade ambiental presente neste troço, as comunidades presentes na zona entre-marés são muito variáveis.

Nas zonas planas com substrato predominantemente arenoso as comunidades intertidais surgem bastante empobrecidas sendo constituídas por algumas espécies de bivalves, anelídeos e isópodes, devido à grande exposição à ondulação.

Nas áreas em que surgem grandes lajões de natureza calcária as comunidades intertidais são representadas por um maior número de espécies quando comparadas com a biocenose anterior. Observa-se uma predominância de macroalgas, sobretudo espécies incrustantes, espécies filiformes e espécies calcárias, por serem resistentes à ação física da ondulação, que se distribuem de forma aleatória no substrato. No limite superior do médio-litoral, é frequente surgirem povoamentos de Ulva intestinalis e Ulva lactuca que são espécies muito resistentes à dessecação.

No que concerne à fauna séssil presente no limite inferior do supralitoral em lajões expostos à rebentação das ondas surgem grandes povoamentos densos de cracas com lapas dispersas, povoamentos de Littorina spp. nos enclaves. Na região média e inferior do médio-litoral surgem anémonas, anelídeos, equinodermes, isópodes e cirrípedes. Em enclaves surgem blénios (Lipophrys pholis e Coryphoblennius galerita), góbios (Gobius paganellus) e ocasionalmente polvos (Octopus vulgaris) e chocos (Sepia officinalis).

Nos recifes rochosos de média e grande dimensão que emergem à superfície, e nas paredes das falésias costeiras, as comunidades presentes na região média e inferior do intertidal são semelhantes. Nestes locais, dada a verticalidade do substrato e hidrodinamismo a ele associado, as comunidades intertidais não surgem estratificadas. Surge uma biocenose principalmente composta por espécies de macroalgas vermelhas incrustantes e calcárias, e por espécies de algas vermelhas e castanhas de pequena dimensão resistentes ao efeito mecânico das ondas.

Nestas biocenoses ocorrem frequentemente povoamentos densos de mexilhão, anémonas e de cirrípedes, nomeadamente percebes (Pollicipes pollicipes).

No troço de costa entre o cabo Sardão e o Cabo de S. Vicente a erosão físico-quimica da falésia resultou no desabamento de blocos rochosos que, por sua vez estão na origem de praias de calhau rolado. Nestas praias, as comunidades presentes no intertidal surgem muito empobrecidas pois, apesar de existirem superfícies sólidas para fixação de macroalgas e invertebrados, os calhaus rolados são frequentemente mobilizados pela ondulação, o que impede a fixação de indivíduos por um período prolongado. Os espaços intersticiais existentes entre os calhaus rolados são demasiado amplos para permitir a fixação de espécies típicas de substrato móvel pelo que não se estabelecem as biocenoses típicas de substrato móvel.

Nas áreas em que os blocos desagregados da falésia ainda não foram totalmente fragmentados pela ação mecânica das ondas e erosão química associada à água marinha, as comunidades intertidais surgem relativamente bem estruturadas. Geralmente apresentam povoamentos supratidais dos líquenes Verrucaria maura e Lichina pygmaea seguidos de povoamentos densos de cracas com lapas dispersas e povoamentos de Littorina spp. nos enclaves existentes na rocha.

As comunidades presentes na região média e inferior do intertidal surgem pouco estratificadas e caracterizam-se pela presença de uma biocenose de macroalgas cujas espécies dominantes são algas vermelhas (sobretudo espécies calcárias e incrustantes e espécies filamentosas) e castanhas (sobretudo espécies de filamentosas) resistentes à ação física das ondas. Nestes povoamentos surgem anémonas dispersas e povoamentos de mexilhões e de percebes.

Biótopos infralitorais

O troço de costa entre o cabo Sardão e o cabo de S. Vicente apresenta elevada heterogeneidade geomorfológica. Esta heterogeneidade é acompanhada pelas comunidades presentes surgindo uma elevada diversidade de comunidades infralitorais consoante o tipo de substrato e fatores ambientais presentes. Tal como foi referido anteriormente existem seis tipos principais de leito marinho presentes neste troço de costa.

Nas áreas de substrato arenoso, uma vez que não existem condições para a fixação de biocenoses de produtores primários, a composição e densidade das comunidades presentes depende da presença de fontes exógenas de matéria orgânica. Nas áreas arenosas presentes nas imediações das falésias e dos recifes rochosos o aporte de matéria orgânica é elevado e provém dos ecossistemas presentes nesses ambientes rochosos. Como tal, as comunidades presentes nestes substratos móveis são representadas por um maior número de espécies e densidade de indivíduos do que noutras áreas arenosas localizadas fora da influência desses ecossistemas.

Nos lajões rochosos expostos à ondulação, as comunidades presentes no andar subtidal formam um mosaico de povoamentos densos de diversos organismos como algas vermelhas e algas castanhas, mexilhões, percebes e por povoamentos de esponjas e anémonas nos locais menos expostos à luz solar e ondulação. A ausência de enclaves e fissuras associados à grande exposição à ondulação impede a fixação de espécies de macroalgas e invertebrados sésseis sensíveis ao desgaste mecânico causado pela rebentação das ondas, e limita a presença de espécies crípticas e bentónicas que são frequentes em ambientes rochosos como blénios (Parablennius gattorugine), góbios (Gobius xanthocephalus), moreias (Muraena helena), safios (Conger conger) e bodiões (Symphodus melops).

Pelo supracitado, as comunidades presentes nos lajões expostos à rebentação que estão presentes entre o cabo Sardão e o cabo de S. Vicente, são típicas de ambientes rochosos, ocorrendo também espécies típicas das zonas arenosas na fronteira entre os recifes e as áreas de fundo arenoso. Contudo a exposição à forte ondulação e ausência de enclaves limita o número de espécies presentes quer nas zonas rochosas quer na transição destas para as zonas arenosas.

Os lajões rochosos que se encontram a maior profundidade estão menos expostos à ondulação e também à erosão, pelo que apresentam normalmente uma superfície mais irregular do que os lajões mais expostos à ondulação. Nestas estruturas rochosas, as comunidades tendem a ser compostas por povoamentos densos de macroalgas castanhas (em alguns locais surgem povoamentos de laminárias) pontualmente interrompidos por povoamentos de gorgónias e esponjas. Nos enclaves e locais mais abrigados surgem densos povoamentos de antozoários e anémonas com anelídeos sésseis dispersos.

Os lajões são por definição superfícies rochosas planas pelo que as comunidades biológicas não apresentam estratificação. Nos locais que fazem fronteira com áreas arenosas surgem espécies típicas de ambientes arenosos que se alimentam da matéria orgânica detrítica proveniente das comunidades presentes em meio rochoso, ou que se alimentam dos organismos sésseis, crípticos ou bentónicos que ocorrem em meio rochoso.

A ictiofauna presente nos ecossistemas que se estabelecem nos lajões é composta por espécies crípticas, ou bentónicas, que encontram abrigo nos enclaves, fissuras e pequenas cavidades, e por espécies demersais que se alimentam dos organismos que se fixam na superfície rochosa. Entre as espécies demersais as mais comuns são os sargos (Diplodus sargus e Diplodus vulgaris).

Os recifes rochosos de média/grande dimensão são estruturas geológicas bastante comuns no troço de costa entre o cabo Sardão e o Cabo de S. Vicente e contribuem muito para a riqueza dos ecossistemas presentes neste troço de costa. Entre estes recifes destacam-se os que emergem até à superfície por permitirem uma estratificação mais evidente das comunidades que se fixam ao substrato. Nestes surgem dois estratos: um formado por povoamentos de algas, sobretudo algas vermelhas e castanhas resistentes ao desgaste mecânico da ação das ondas pontualmente interrompido por densos povoamentos de mexilhão e percebe; e um segundo estrato, principalmente composto por povoamentos de invertebrados como anémonas, esponjas, briozoários, gorgónias e anelídeos. A transição entre os estratos ocorre a cerca de -10 m de profundidade.

Estes recifes, por estarem expostos à ondulação são muito heterogéneos em termos morfológicos. Assim, surgem frequentemente fissuras, cavidades e enclaves que abrigam inúmeras espécies de invertebrados e peixes e portanto as comunidades presentes tendem a ser mais diversificadas do que as presentes nos lajões.

Nas falésias a comunidade presente no andar infralitoral é muito semelhante à presente nos recifes de média/grande dimensão devido ao facto destas estarem sujeitas às forças de erosão. Assim, junto às falésias o leito é frequentemente formado por blocos rochosos desagregados. Esta heterogeneidade recria diferentes ambientes que permitem a fixação de inúmeras espécies e portanto as comunidades presentes tendem a ser muito ricas em diversidade específica e densidade de indivíduos.

Nas falésias mais expostas à ondulação em que o leito marinho surge mais próximo da superfície ou onde se formam áreas de sedimentação, o substrato tende a ser arenoso. Nestes locais as comunidades sésseis apenas encontram substrato viável na superfície da falésia. No leito estabelecem-se comunidades típicas de ambientes arenosos, em que as espécies dominantes são anelídeos, gastrópodes e algumas espécies de decápodes, que dependem da deposição de matéria orgânica proveniente dos povoamentos presentes sobre a superfície rochosa circundante.

A estratificação dos organismos sésseis existentes depende da profundidade, que limita a luz disponível para os produtores primários, e a ondulação. No troço de costa entre o cabo Sardão e o cabo de S. Vicente a profundidade junto à falésia é muito variável podendo nalguns locais ser de -3 a -6 m e noutros ultrapassar os -20 m. Nos locais onde a profundidade junto à falésia é maior do que -10 m a estratificação das comunidades sésseis presentes no infralitoral é bastante clara, surgindo uma biocenose de macroalgas que se pode estender até -10 m de profundidade e uma biocenose de invertebrados, sobretudo anémonas, briozoários e esponjas. Estas falésias, pela sua menor heterogeneidade topográfica, apresentam menos espécies do que as falésias onde ocorreram derrocadas.

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