Troço entre o Cabo de S. Vicente e Sagres

Ambiente Geomorfológico

Neste troço de costa o ambiente geomorfológico mantém-se muito semelhante ao existente entre o cabo Sardão e o cabo de S. Vicente. A fronteira entre o ambiente terrestre e o ambiente marinho consiste numa falésia de natureza rochosa bem compactada (principalmente calcário) e recortada pela ação da erosão marinha e a presença pontual de praias arenosas. Junto às falésias, nas zonas de acumulação de sedimento, o leito marinho surge a baixa profundidade, raramente abaixo dos -6 m. Por outro lado, nas zonas de falésia mais expostas à ondulação, a profundidade a que o leito marinho se encontra ronda os -15 m ultrapassando frequentemente os -20 m.

O leito marinho nesta zona costeira é heterogéneo surgindo grandes áreas rochosas, áreas arenosas e recifes rochosos com superfícies irregulares. Junto à falésia, à semelhança do troço entre o cabo Sardão e o cabo de S. Vicente, o substrato marinho varia consideravelmente. Nos locais de sedimentação, o substrato é arenoso e nos locais onde ocorreram desabamentos o leito marinho mantém elevada heterogeneidade topográfica e tem uma natureza rochosa.

Apesar da profundidade média do leito marinho junto à falésia ser superior quando comparada com o troço de costa entre Sagres e o cabo de S. Vicente, existem dois fatores, que estão na base da singularidade destas duas áreas marinhas. Estes fatores são:

  • O facto deste promontório se encontrar no extremo do corredor que efetua ligação entre o Mar Mediterrâneo e o Oceano Atlântico e ser um local onde se encontram massas de água provenientes do Norte de África e do Mediterrâneo;
  • O facto de o troço de costa entre o cabo de S. Vicente e o porto da Baleeira em Sagres, ter uma orientação Norte-Sudeste-Este e portanto estar mais abrigado da ondulação e corrente de orientação NO-O.

Pelo supracitado, neste troço de costa, os ecossistemas marinhos incluem espécies provenientes de zonas temperadas quentes e subtropicais bem como do Mar Mediterrâneo, que constitui a região da Província Lusitânica onde Portugal está inseridocom um maior número de espécies endémicas (15,4% das espécies do Mar Mediterrâneo são endémicas). Pelo facto de Sagres ser o extremo do canal de ligação entre o Mar Mediterrâneo e o Atlântico são comuns os encontros com espécies cujo centro de distribuição se encontra no Mar Mediterrâneo e também o local de encontro com espécies de grandes peixes pelágicos e cetáceos durante os seus movimentos migratórios entre estas massas de água.

No troço entre o cabo de S. Vicente e o Porto da Baleeira a exposição à ondulação predominante é inferior à exposição das linhas de costa com orientação aproximada Norte-Sul. Esta característica, associada à maior profundidade média a que se encontra o leito marinho junto às falésias e à grande heterogeneidade do leito, permite o estabelecimento de comunidades infralitorais muito diversas e abundantes que incluem espécies adaptadas a zonas de elevado hidrodinamismo e espécies típicas de ambientes menos dinâmicos.

Durante o trabalho de campo realizado no âmbito do ATLAS foram detetadas apenas três espécies que não foram detetadas em mais nenhum dos troços prospetados. Estas espécies foram o tubarão-martelo-recortado (Sphyrna lewinii), a orca (Orcinus orca) e o peixe-lua (Mola mola). A sua distribuição inclui toda a costa ocidental de Portugal Continental não sendo raros os encontros com o tubarão-martelo e com peixe-lua, e sendo apenas ocasionais os avistamentos de orcas. No entanto, a deteção destas espécies no curto período em que a amostragem foi realizada em Sagres reflete uma das maiores singularidades desta linha de costa, que é o encontro frequente com grandes pelágicos oceânicos. Neste troço de costa, e um pouco por toda a costa do Algarve, assiste-se anualmente à migração de cardumes de tubarão-martelo entre Julho e Outubro e de atum entre Maio e Outubro.

Comunidades intertidais

As comunidades presentes no intertidal dependem sobretudo da natureza e inclinação do substrato e exposição à ondulação. No troço entre o cabo de S. Vicente e Sagres as comunidades intertidais surgem em quatro tipos de substrato:

  • Áreas arenosas;
  • Superfície da falésia;
  • Zonas de derrocada;
  • Superfície exposta de recifes emergentes.

As áreas arenosas surgem nas praias presentes neste troço de costa e formam planícies pouco alcantiladas expostas à ondulação regular. Assim, os biótopos intertidais arenosos presentes no troço em análise são representados por um número reduzido de espécies, sobretudo de anelídeos de vida livre que surgem em baixa densidade.

Nas áreas de falésia, devido à verticalidade do substrato as comunidades intertidais estão confinadas a uma faixa estreita entre os limites superior e inferior da maré. Estas comunidades surgem estratificadas em duas biocenoses: a biocenose presente no supratidal e a biocenose presente no intertidal.

A biocenose presente no supratidal é representada por povoamentos de líquenes estratificados. No topo da falésia são comuns os povoamentos de Xanthoria parietina, que é um líquen de cor amarela e aspeto rugoso, em conjunto com povoamentos de Ramalina siliquosa, que é um líquen de coloração cinzento-esverdeado que forma tufos. Nas paredes das falésias surgem povoamentos de Caloplaca marina que é um líquen de coloração amarela que surge incrustado na rocha. Nas áreas mais próximas do limite inferior do andar supralitoral surgem povoamentos de Verrucaria maura e Lichina pygmaea seguidos por povoamentos de cracas (Balanus sp.) com lapas dispersas (Patella spp.) e nos enclaves surgem povoamentos dos gastrópodes Littorina spp..

A biocenose presente no médio-litoral inclui povoamentos densos e não estratificados de macroalgas resistentes à ação das ondas. Entre as espécies mais comuns incluem-se algas vermelhas incrustantes e calcárias e algas vemelhas e castanhas de pequenas dimensões. Os invertebrados presentes no médio-litoral são lapas, mexilhões e percebes por serem espécies resistentes à ação das ondas.

Nas zonas de derrocada, a composição geral das comunidades presentes no intertidal é semelhante à presente nas falésias, refletindo o elevado hidrodinamismo presente no troço entre o cabo de S. Vicente e Sagres. No entanto, nas zonas de derrocada a área total de substrato sólido que está sob influência da maré é maior, pois a inclinação do substrato é menor do que a que se pode observar nas falésias. Surgem assim enclaves que permitem a fixação de espécies menos resistentes à ação do hidrodinamismo das ondas. Entre estas espécies destacam-se algas verdes como o Codium sp., algas castanhas como a Bifurcaria bifurcata e o Sargassum sp., os ouriços (Paracentrotus lividus), as anémonas, góbios (Gobius cruentatus), blénios (Parablennius pilicornis), rascassos (Scorpaena notata), chocos (Sepia officinalis), polvos (Octopus vulgaris) e moreias (Muraena helena), caranguejos (Carcinus maenas, Eriphia verrucosa, Pachygrapsus marmoratus, etc.), navalheiras (Necora puber) e outras espécies de artrópodes, bem como diversas espécies de anelídeos.

Nos peões e outros recifes que emergem até à superfície, as comunidades intertidais são muito semelhantes às presentes nas falésias com a diferença de que as biocenoses presentes no supratidal, ou estão ausentes, ou são apenas representadas pelas espécies que surgem mais próximas do limite inferior como Verrucaria maura e Lichina pygmaea, e os povoamentos de cracas com lapas dispersas.

Comunidades infra-litorais

Tal como acontece com as comunidades presentes no intertidal, a composição das comunidades presentes no infralitoral depende sobretudo da natureza do substrato. No troço de costa entre o cabo de S. Vicente e Sagres surgem quatro tipos de substrato:

  • Áreas de areal;
  • Grandes áreas rochosas, recifes e peões;
  • Fundos de areia adjacentes às falésias;
  • Derrocadas adjacentes às falésias.

As áreas de areal ocorrem nas proximidades das praias existentes entre o Cabo de S. Vicente e Sagres. Dado o elevado hidrodinamismo presente e a escassez de fontes exógenas de matéria orgânica ou nutrientes, as comunidades presentes nos areais são representadas por um número reduzido de espécies, sobretudo anelídeos, gastrópodes e peixes, que ocorrem em baixa densidade. Nas áreas que se encontram sob maior influência da rebentação das ondas, o número de espécies é ainda menor.

Na área de costa entre o cabo de S. Vicente e Sagres surgem grandes áreas rochosas muito heterogéneas que disponibilizam uma grande diversidade de habitats utilizados por inúmeras espécies. O tipo de comunidades infratidais presentes nestas áreas rochosas depende do relevo presente. Assim, nos recifes que emergem da superfície, ou cujo o topo está próximo da superfície, as comunidades surgem estratificadas em duas biocenoses: uma predominantemente composta por macroalgas vermelhas e castanhas que se prolonga até uma profundidade de cerca de -10 m e uma biocenose em que predominam anémonas, briozoários, esponjas, gorgónias, ouriços-do-mar, holotúrias e outros equinodermes, e anelídeos sésseis. A grande heterogeneidade morfológica das áreas rochosas presentes no troço em análise, permite a fixação de inúmeras espécies criptobênticas, bentónicas de vida livre e espécies demersais. Os biótopos rochosos presentes entre o cabo de S. Vicente e Sagres são as áreas marinhas entre a Comporta e o Burgau onde ocorre uma densidade maior de espécies de invertebrados e de peixes e portanto apresentam especial relevância do ponto de vista da conservação da natureza e gestão de recursos naturais marinhos.

Os fundos de areia adjacentes à falésia ocorrem nas áreas em que geomorfologia do leito marinho e da linha de costa e a deriva costeira criam locais de sedimentação da carga de inertes que é transportada ao longo da costa. Nestas áreas, as comunidades presentes dependem do aporte de matéria orgânica proveniente das biocenoses que se fixam ao longo da superfície das falésias. A sua composição é mista, apresentando espécies típicas de ambientes arenosos e rochosos, e a sua riqueza específica e densidade de indivíduos depende do equilíbrio entre o aporte de matéria orgânica e a deriva costeira. Tal como noutros locais, a composição específica presente nestas áreas inclui algumas espécies sésseis como anelídeos, gastrópodes típicos de habitats arenosos.

No troço de costa em estudo existem inúmeras derrocadas de grandes blocos junto à falésia. Nestas áreas, a grande heterogeneidade morfológica permite a fixação de um grande número de espécies. O tipo de biocenoses presentes nas zonas de derrocada depende da exposição à rebentação das ondas e disponibilidade de luz. As espécies presentes e estratificação das comunidades são semelhantes às presentes em grandes recifes rochosos e áreas rochosas com elevado relevo como grandes recifes e peões.

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